quarta-feira, 26 de agosto de 2015

P.E.C. Nº 315: Reconhecimentos ilegais. Querer ganhar a batalha sem sair do quartel-general...


... - continuação da P.E.C. anterior - ...
I)

uns anos (a nossa memória é hoje já algo imprecisa para especificar quais) fomos desafiados por duas ocasiões a ir assistir a reconhecimentos de Ralis.

Uma sucedeu através de amigo bem informado que comunga connosco do apego à modalidade.

Outra, ainda que de forma algo indireta, na decorrência de conversa com conhecida figura ligada ao automobilismo.

Sucedeu, podemos precisar, em duas épocas desportivas consecutivas, e em dois Ralis distintos um do outro.

Ao tempo (que não foi assim há tanto…), este período de preparação das provas ainda não tinha generalizadamente o nome de reconhecimentos.

Eram treinos, ponto final.

O repto interessou-nos de imediato, alimentando-nos a curiosidade e o adjacente nervoso miudinho que muitas vezes invade quem tem a rara oportunidade, concedia por norma a núcleos muito restritos, de assistir a algo fora das regras.

Ensina o povo, aliás, que o fruto proibido é o mais apetecido, não é?

Um certo ‘prazer-culpado’ conduziu-nos, pois, aos troços de tais Ralis, quase como se, dentro de um sentimento de pertença à modalidade, intuíssemos também ser prevaricadores e no subconsciente antecipássemos o medo de ser apanhados.

Numa das ocasiões recordamo-nos que os raios do sol faziam a primeira aparição do dia, na outra era o lusco-fusco de final de (fria) tarde que anunciava o anoitecer para alguns minutos depois.

Ou seja: situações ideais e seletivamente pensadas para conduzir ainda sem faróis ligados e com boa visualização da estrada, mas já com luz natural mais baça para ajudar a camuflar a identificação de quem, logo de seguida, apareceria a (muito) bom ritmo na estrada à nossa frente.

Os óculos escuros na cara dos condutores dos três/quatro carros que vimos passar em cada uma dessas ocasiões foram insuficientes para lhes encobrir por completo a identidade, e de imediato se percebeu na perfeição quem estava na nossa presença: destacados pilotos, ao tempo, no contexto do campeonato nacional de Ralis.

A experiência permitiu-nos arreigar uma ideia mais aprofundada deste desporto, longe do brilho glamoroso e cintilante dos Grupos B, do Alén ou do McRae.

À nossa frente ia desfiando um rosário de passagens pelas especiais, atravessadelas em bom estilo, cortes pelo interior de curvas, e carros que pareciam do dia-a-dia mas que pelo andamento e barulho manifestamente estavam faralhados, tipo aquelas mulheres que trajam no quotidiano um discreto conjunto saia-casaco, ao mesmo tempo que envergam como indumentária interior um poderosíssimo cinto de ligas.

Essas duas ocasiões ajudaram-nos a compreender uma série de coisas que os Ralis nacionais não gostam que sejam compreendidas.

A dicotomia públicas virtudes vs vícios privados ficou ali bem à vista, com pilotos a percorrer de forma antirregulamentar troços que disputariam em competição pouco tempo depois, ajudados por amigos e conhecidos a vigiar a classificativa ‘fechando’ cruzamentos e acessos ao troço.

Após a experiência não ficámos especiais entusiastas deste género de práticas.

Ou melhor: no plano dos princípios que devem nortear algo que se pretende afirmar como um desporto, após a experiência ficámos muito pouco (e ainda menos…) entusiastas deste género de práticas.

Pensámos durante algum tempo na desvantagem competitiva de quem entra em competição sem fazer concessões à decência e aos princípios.

Tentámos fazer um esboço mental de quanto se gastaria adicionalmente para quase fazer um Rali antes do próprio Rali.

E, até hoje, vamos por vezes conjeturando sob as melhoras formas (nunca ideais, nem perfeitas…) de, existindo um problema que se encontra perfeitamente identificado, se encontrar maneira de o minorar ou, preferível, resolver em definitivo.

II)

Os reconhecimentos ilegais são a nosso ver um problema central dos Ralis nacionais, que deve ser combatido encarando-o de frente.

O meio diretamente ligado à modalidade conhece múltiplos episódios e peripécias ligadas ao tema, pelo que não valerá a pena escamoteá-lo fingindo que não existe.

Existe.

Aliás, não só existe como é uma realidade bem presente no momento atual do CNR.

Não é fácil mensurar os Ralis portugueses quando estes se recusam permanente autoavaliar-se.

Num enquadramento de reconhecimento das provas que se sabe de antemão ter dados viciados, não há estranhamente uma única voz que esboce um sopro de desconforto ou um laivo de crítica sobre o tema.

É premente que a modalidade lance desafios a si própria, se questione, e a partir daí vá à procura de novos paradigmas que a façam alinhar-se com as melhores práticas em matéria de Ralis que ocorrem por esse mundo fora, campeonato do mundo incluído.

O clima de aceitação tácita relativamente à prática irregular dos reconhecimentos, é o primeiro caminho para as dificuldades que os pilotos nacionais experimentam quando competem em Ralis e/ou campeonatos no exterior.

Confira-se, a título de exemplo, a posição expressa por Diogo Gago sobre a questão, consultável aqui.

O maior erro estratégico em que este desporto sistematicamente incorre, é olhar para a questão dos reconhecimentos apenas sob o prisma regulamentar.

Esse será o problema a montante.

A jusante levantam-se, em simultâneo, interrogações de outra ordem.

Uma das críticas que generalizadamente os pilotos apontam às nossas provas é estas repetirem-se ano após ano, temporada após temporada, com segmentos competitivos (leia-se: troços) que mudam muito pouco ou mesmo nada.

Praticamente todo o pelotão que compete regularmente no CNR conhece quase na perfeição o terreno onde se disputam as provas (exceto as que integram pela primeira vez a competição, ou dela não constam há muitos anos como é o caso do próximo Rali de Mortágua, agora disputado em terra em classificativas outrora selecionadas para o Rali de Portugal), e por conseguinte não tem vantagem competitiva em andar a multiplicar-se em passagens por estradas que se encontram nas mesmíssimas condições do ano anterior, ou, ainda que tenham diferenças, estas por norma são de tal forma inexpressivas que não traduzem qualquer influência nos tempos finais a realizar depois na competição a sério.

Muito mais que colher informação atualizada sobre o estado dos troços, os pilotos socorrem-se do artifício dos reconhecimentos ilegais para treinar a condução em ritmo o mais próximo possível do de competição.

Entra aqui de forma automática o problema a montante.

Os reconhecimentos ilegais não podem ser perspetivados apenas sob o prisma regulamentar: tem de ser encarados em paralelo como uma infração ao código da estrada.

E necessariamente atacados nessa dupla vertente.

Sabemos que a FPAK, entidade a quem funcionalmente compete a gestão deste dossiê, não tem poderes para ir antes das provas (e fora dos períodos expressamente consignados aos reconhecimentos) aos troços intercetar e fazer parar carros onde alegadamente estejam sentados ao respetivo volante pilotos de Ralis.

Mas não obstante essa nuance, talvez possa e deva trabalhar no sentido de, seja em letra de lei, seja em sede protocolar, edificar uma espécie de parceria com os órgãos policiais com competência para a fiscalização do trânsito nas estradas.

Dentro de vários núcleos ligados aos Ralis, em roda livre contam-se muitos episódios de alegados ‘reconhecimentos’ à volta de velocidades desmesuradas dentro de povoações, ultrapassagens ao trânsito civil de cortar a respiração, entre outras violações grosseiras à sinalização horizontal e vertical que disciplina as estradas por onde passam Ralis.

Nos períodos antes de alguns Ralis nacionais irem para a estrada, há recorrentemente verdadeiras corridas automóvel a parecerem quase rivalizar, passe o exagero, com as famigeradas e lúgubres aceleradelas ilegais na A2 ou na Ponte Vasco da Gama.

É aqui que, repetimos, tem que incidir o foco da questão.

A partir do momento em que FPAK consiga sensibilizar as forças da ordem para este tipo de práticas, e se estabeleça no terreno a realização de operações conjuntas com vista a atacar a dupla face do problema, fazendo parar automóveis intercetados em contravenção ou mandando-os encostar à beira da estrada em meras operações de rotina (atacando a PSP/GNR as questões do foro do código da estrada, e em simultâneo um ou mais elementos da FPAK tratando de identificar para efeitos disciplinares quem vai a conduzir), estar-se-á no caminho correto para erradicar os reconhecimentos ilegais dos Ralis portugueses, ou pelo menos fazer pensar duas vezes os pilotos que são useiros e vezeiros no recurso a este tipo de expediente.

Alega a FPAK, com razão, que é impossível fiscalizar em regime de quase permanência os troços de um Rali durante duas ou três semanas (quando não mais) antes deste se disputar.

Por um lado porque, como é evidente, não há efetivos suficientes para poder, em regime de exclusividade, assegurar tal policiamento, sobretudo quando estamos perante estradas secundárias e com fluxos de trânsito diminutos.

Por outro porque, ainda que em tese fosse possível levar à prática o que se referiu na frase anterior, isso implicaria um dispêndio de verbas não compagináveis com o estado atual do automobilismo nacional em matéria de finanças.

A questão central não será essa.

No mundo atual em que se gere cada processo de comunicação para ter eficácia imediata, e se produzem notícias ao ritmo de quem faz pãezinhos-quentes, a prioridade da Federação enquanto entidade fiscalizadora não tem de ser sequer apanhar prevaricadores em flagrante.

Dentro de um conjunto de agentes da modalidade (os pilotos) que não conseguem, ou, pior, não querem autorregulamentar-se quanto à forma de realizar os reconhecimentos das provas, a FPAK tem que de forma incisiva apostar antes de mais é em dar sinais e fazer passar mensagens.

Sinais suficientemente claros de que há fiscalização no terreno.

Mensagens implícitas que inculquem no subconsciente dos pilotos a possibilidade de serem apanhados e punidos por estas práticas não permitidas nos regulamentos.

Para isso, quaisquer trinta minutos de ação fiscalizadora conjunta entre PSP/GNR e FPAK antes de qualquer prova, feita de forma cirúrgica, sem aviso prévio e com conhecimento reduzido aos elementos indispensáveis para garantir o secretismo e sucesso da operação, tem necessariamente resultados comprovados, sobretudo se, após os respetivos Ralis, diretamente ou indiretamente tal trabalho seja levado ao conhecimento de quem compete.

No primeiro Rali da época pode-se até não intercetar ninguém, mas os pilotos ficam a saber que há pela primeira vez uma intenção de fiscalizar e moralizar os reconhecimentos.

Ao segundo Rali do ano pode-se de novo não intercetar ninguém, mas os pilotos ficam a perceber que o assunto é para ser levado a sério, rompendo com a tradição de absoluto laxismo que tem pautado o tema desde os primórdios deste desporto no nosso país.

Ao terceiro rali da temporada pode-se novamente não detetar irregularidades, mas os pilotos interiorizam que a Federação não desarma no intuito de exercer a autoridade necessária para implementar regras iguais para todos.

E quando alguém por obra do azar for apanhado em pleno troço a fazer reconhecimentos sem estar autorizado para o efeito, sendo em consonância exemplarmente punido por conduta antidesportiva, aí o regabofe termina de vez, depuram-se os Ralis nacionais de velhos vícios que o alimentam há muito tempo, e estarão lançadas as bases para devolver à modalidade a credibilização de que necessita para se expandir e promover.

Sinais e mensagens: o ‘segredo’ começa por aí…

III)

No meio de todas as considerações que atrás se levantaram, há uma questão que inevitavelmente emerge: estão os Ralis portugueses preparados para uma revolução ao nível das mentalidades, desconstruindo-se quanto aos reconhecimentos uma realidade à muito enraizada no espírito de vários dos protagonistas da modalidade?

Temos dúvidas.

Aliás: muitas dúvidas.

O assunto, nas raras ocasiões em que se debate com profundidade a modalidade, é invariavelmente tratado com luvas de pelica, quando não votado a um olímpico (e muito conveniente) silêncio.

As sucessivas candidaturas que de há anos a esta parte têm concorrido aos órgãos sociais da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, que nos recordemos nunca inscreveram esta problemática com nota de destaque nos respetivos programas eleitorais, muito menos a promoveram como uma bandeira a hastear em caso de eleição.

A tarefa é difícil e exige persistência.

Reivindica pessoas com um perfil resoluto que, a bem dos princípios, se necessário não hesitem em comprar uma guerra com os pilotos até que a questão possa ser solucionada.

Pessoas suficientemente distanciadas do núcleo duro dos Ralis em Portugal, que, por tal via, estejam resguardadas (e acima) de pressões e interesses das mais variadas proveniências.

Pessoas com espírito de missão, que não se desviem um milímetro do propósito de trabalhar para que a igualdade de condições para a prática da modalidade seja um dado concreto, nem façam do seu trabalho uma mera plataforma para reeleições futuras.

Pessoas que cheguem para, se necessário for, cortar a eito sem olhar a credos ou a nomes, caso a via do diálogo redunde em impasses.

Pessoas que, em suma, ousem fazer algumas provocações ao establishment e mexam num certo imobilismo de que esta modalidade enferma há muitos anos.

Os Ralis nacionais nunca encontraram pessoas com essas características.

Nem vão encontrar.

Por um lado porque pessoas com tais características possivelmente não existem.

E se existem, os Ralis estão tudo menos interessados em puxá-las para o seu naipe de principais decisores.

Nessa medida tudo vai alegremente continuar como está, com uma ou outra voz crítica de premeio à qual ninguém prestará atenção nem se dignará rebater argumentos.

Por isso, caro leitor, desde já se lança a sugestão.

Esqueça tudo o que leu neste e no nosso anterior trabalho.

Finja, simplesmente, que ambos nunca existiram…

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Nota:
- A foto selecionada para abrir este trabalho reporta-se ao período de reconhecimentos definidos pela organização (completamente em conformidade com os regulamentos, portanto) ocorridos no Rali Serras de Fafe em 2014. De forma alguma se pretende sugerir, implícita ou tacitamente, qualquer ligação do piloto e copiloto que na imagem aparecem no interior do Subaru (pensamos, sem certezas, tratar-se, respetivamente, de Américo Antunes e João Serôdio) a práticas menos regulares ou, se quisermos, ilícitas, em matéria de reconhecimentos de classificativas.

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://autosport.pt/iv/1/53/541/img1521-4b6f.jpg

terça-feira, 11 de agosto de 2015

P.E.C. Nº 314: Reconhecimentos ilegais. Uma selfie dos Ralis nacionais na qual ninguém fica especialmente bem...



"Os reconhecimentos ilegais continuam a dar que falar e no Rali Cidade de Guimarães voltaram a estar na ordem do dia. Sem qualquer controlo por parte da FPAK e das organizações dos clubes, foi possível apurar que, na segundo prova do ano do Nacional de Ralis, pilotos foram vistos a fazer reconhecimentos no próprio dia de arranque do rali, o que parece ultrapassar todos os limites do bom-senso. Se há bem pouco tempo a entidade federativa assumiu não ter meios para controlar as infrações, o que até pode ser, de certo ponto de vista, compreensível, parece deixar de o ser quando elas acontecem no próprio dia do rali, ficando a ideia do que falta mesmo é 'vontade política' para resolver o problema." 
in AutoSport n.º 1946
15 de abril de 2015

A pequena notícia que acima reproduzimos é datada deste ano.

Da presente época desportiva, portanto.

Em concreto: de há meras cinco provas atrás integradas no calendário do campeonato nacional de Ralis de 2015.

Meia-dúzia de frases servem na perfeição para nos relembrar uma realidade pintada em tons de negro mas bem presente e conhecida no meio da modalidade.

Abordar a questão dos reconhecimentos ilegais nos Ralis em Portugal é, desde sempre, invariavelmente tocar num ponto melindroso deste desporto.

Há um desconforto generalizado quando por qualquer motivo o tema ganha expressão mediática e sai do limbo de silêncios a que muitos (todos?) dos principais agentes da modalidade interessa manter esquecido.

Na preparação de cada Rali, o recurso ao admirável mundo das novas tecnologias para identificação e reconhecimento do respetivo percurso é hoje algo comum a todos os concorrentes.

Antecipar cenários e saber previamente com o máximo de detalhe os caminhos que depois se vão pisar em ritmo de competição, não só é mandamento para quem entra em Ralis no intuito de andar o mais rápido possível, como quase obrigação para quem se pretenda credibilizar e ser levado a sério na modalidade.

Não obstante todo um conjunto de ferramentas virtuais ao dispor de quem compete para, por antecipação, preparar o mais convenientemente possível as notas que serão ditadas no dia de prova (matéria com alguma complexidade para a qual, convenhamos, os regulamentos dos Ralis ainda não souberam adequar-se), continua a ser insubstituível a avaliação pessoal das condições dos troços, feita presencialmente através dos reconhecimentos por piloto e respetivo navegador.

Ensinam as normas dos Ralis que, por via de regra, apenas são permitidas duas passagens no percurso de cada classificativa antes da prova propriamente dita: uma, a primeira, para colher as notas que constarão do caderno do navegador para ser lidas em competição, e uma outra, a segunda, para as confirmar ou, se necessário, as corrigir.

Em Portugal tal normativo é, desde há muitos anos, praticamente letra-morta.

Os reconhecimentos ilegais, traduzidos em sucessivas passagens nos troços em regime de clandestinidade antes de prova, são o maior pecadilho dos Ralis portugueses, do qual quase ninguém dentro dos protagonistas da modalidade (pilotos, organizadores e entidade federativa) sai especialmente bem-visto no respetivo retrato…

a) Os pilotos…

Ouvimos e lemos amiúde declarações de quem compete, insurgindo-se contra a rebaldaria de reconhecimentos feitos à base de dezenas de passagens nas especiais no período que medeia a apresentação de um qualquer Rali e as horas imediatamente antes do mesmo começar.

Mesmo dentro do conjunto dos pilotos de topo do CNR, alegadamente com mais meios financeiros que o grosso do pelotão para competir na modalidade, não é difícil encontrar exemplos de críticas com o acréscimo de encargos decorrentes destas passagens ‘extra’ (em orçamentos quase sempre apertados), ou o assinalar da incongruência em haver um conjunto de carros especificamente destinados a reconhecimentos que, somados, fazem corar de inveja o parque automóvel de várias provas do calendário oficial deste desporto em Portugal.

São, em suma, recorrentes as vozes a reivindicar necessidade premente de introduzir moralização nos reconhecimentos realizados à margem da regulamentação que rege a questão.

O problema que se levanta é na passagem das palavras para os atos.

Perdoe-se a nossa frieza, mas a observação que fazemos da realidade dá-nos conta de um cenário carregado de cinzentismo, em que a generalidade dos pilotos e navegadores ao invés de trabalhar no sentido de mobilizar os seus pares para o combate conjunto aos reconhecimentos ilegais, opta na esmagadora maioria das situações por fazer exatamente o contrário dos princípios que apregoa, sucumbido à tentação de incumprir regulamentos.

Há muito poucos impolutos nesta matéria.

Num meio pequeno, em Ralis quase sempre iguais e em itinerários sobejamente conhecidos, os telhados de vidro quanto a reconhecimentos fora das regras são uma generalidade.

Para combater os vícios e esquemas dos outros, o elenco dos concorrentes aos Ralis portugueses escolhe quase sempre o conforto e a comodidade de se deixar deliberadamente levar pela onda de tais vícios e esquemas.

O velho adágio, carregado de alguma ironia, que incita a que ‘faz o que digo: não faças o que faço’, tem nos Ralis portugueses uma admirável expressão prática.

Quando seria expectável que partisse dos próprios pilotos um elã firme e determinado em por cobro a práticas ilegais em matéria de reconhecimentos, colocando-os todos em pé de igualdade na preparação de cada prova, o contexto demonstra precisamente o contrário, caminhando-se quase sempre, em linhas gerais, no sentido de engrossar a anarquia desregrada e sem quartel que pauta este tema.

Nas diversas reflexões que temos promovido neste espaço acerca do campeonato nacional de Ralis, fomos fazendo feito inúmeras vezes a defesa de quem compete, por entendermos que há bastante trabalho a fazer no sentido de recentrar o foco da modalidade nos seus protagonistas, muitas vezes o elo mais fraco de todo o ordenamento que norteia este desporto no nosso país.

No aspeto em particular da irregularidade dos reconhecimentos nas provas, lamentamos, porém, que pilotos e navegadores recusem de forma séria assumir-se enquanto parte da resolução do problema.

E quando espartilhados numa tão confrangedora quanto lamentável APPAtia não pretendem ser parte da resolução do problema, então necessariamente passam a tornar-se de imediato parte integrante do problema.

b) Os organizadores…

Não fazemos uma leitura segundo a qual deva ser quem organiza Ralis a assumir as dores de fiscalizar a regularidade dos reconhecimentos nas respetivas provas (ver mais abaixo declarações de Joaquim Capelo, diretor FPAK com o pelouro dos Ralis).

Há um edifício legislativo geral e abstrato que rege esta matéria, pelo que tal ónus recai, a nosso ver, na entidade federativa.

As entidades organizadoras não têm interesse em entrar num processo de hostilização relativamente a quem (os concorrentes) lhes garante o sustentáculo dos respetivos eventos, pelo que sugerir-se que devam ser parte ativa nesta matéria não só nos parece pouco sensato como até ser algo claramente a evitar.

Aos clubes que colocam os Ralis no terreno devem ser pedidas meças por tudo aquilo que decorre durante a prova (incluindo os reconhecimentos oficiais) e não por aspetos extradesportivos à margem do evento.

Não é difícil antever, dentro de toda uma teia de pequenas tramas e maquinações que os Ralis nacionais alimentam há muitos anos, que uma participação direta ou indireta dos organizadores no processo de fiscalização aos reconhecimentos ilegais iria em muitos casos necessariamente originar fugas de informação, bem como prejudicar o efeito-surpresa que o combate a qualquer comportamento à margem das normas tem obrigatoriamente de ter para se tornar eficaz.

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"Os reconhecimentos de ralis em Portugal e, em particular, no Campeonato Nacional têm regras definidas mas que estão longe de ser cumpridas. Por isso, há quem considere que se não é possível controlar os reconhecimentos ilegais, mais vale liberalizar as regras definitivamente. Uma questão polémica e que, em última analise, aparece como uma pedra no sapato de muitos pilotos e, sobretudo, de jovens que se quiserem ter sucesso nos ralis internacionais têm que se habituar a não fazer mais do que duas passagens de reconhecimentos, como acontece na maior parte das provas internacionais. Principal responsável pela regulação dos reconhecimentos, a FPAK afirma-se impotente para controlar as investidas fora de horas pelos troços dos pilotos. Conforme confessa Joaquim Capelo, diretor da FPAK e um dos principais responsáveis pela ‘pasta’ dos ralis, “praticamente todas as semanas falamos deste assunto nas reuniões e a verdade é que não temos a solução ideal para acabar com os reconhecimentos ilegais. Os pilotos jogam ao rato e ao gato e faltam-nos os meios para poder controlar os seus passos. Até poderiamos limitar mais os reconhecimentos nos dias que as organizações os agendaram, mas isso implicava que as organizações tivessem mais custos e muitas delas já estão no limite do que podem gastar. Na verdade, isso também só resolveria uma parte do problema pois não podemos pagar às forças de autoridade ou às organizações para uma semana ou um mês antes do rali estar a identificar pilotos na zona dos troços”. Sob esta perspetiva, “se não temos os meios de exercer um controlo é apelar ao bom senso  e coração das equipas e esperar que os pilotos respeitem o regulamento”. Mas aquilo que, no fundo, está a ser pedido é uma mudança de mentalidade e isso, infelizmente, não se faz de um dia para o outro..." 
Notícia publicada no site da revista AutoSport em 1 de abril de 2015

c) A Federação…

A notícia data de 1 de abril do corrente ano.

Podia-se lê-la à luz de uma qualquer inócua mentira a que associamos a tal data.

Mas não.

É real.

No contexto de uma série de declarações então proferidas sobre a temática dos reconhecimentos nos Ralis, Joaquim Capelo, Diretor da FPAK a quem está confiada a pasta alusiva à modalidade, abordou o problema publicamente de uma forma que, analisada e lida sob o ponto de vista institucional, é grave.

Talvez possamos enquadrar o pensamento expresso por Capelo no âmbito de uma frontalidade quase ingénua.

É admissível que se possa justificar o ponto de vista do homem-forte da Federação para os Ralis à luz de uma inabilidade comunicacional, ou dentro de uma incapacidade para medir o efeito e alcance das respetivas palavras (algo que ainda assim seria pouco compaginável com as altas-funções a que está acometido).

Da súmula do que foi referido à AutoSport, evidencia-se a ideia de que a FPAK não tem meios (técnicos? humanos? financeiros?) para controlar as diatribes dos pilotos quanto a reconhecimentos às classificativas fora dos períodos expressamente consignados para o efeito.

Soluções milagrosas e ideais para por cobro a estas práticas, de facto, não existem, uma vez que a questão é em si própria complexa.

Joaquim Capelo pode até no seu íntimo estar convicto que a entidade federativa não tem mesmo forma de dar a volta ao problema.

Pode, por exemplo, em privado e dentro do seu círculo de amizades confidenciar que o assunto é uma doença para a qual a FPAK não encontra cura.

Jamais pode é dizê-lo publicamente!

Em meia-dúzia de frases, Capelo conseguiu desencadear aquilo que nos meios de comunicação se costuma apelidar de ‘tempestade perfeita’.

Em algumas dezenas de minutos de declarações públicas à imprensa especializada, sinalizou, de forma clara, que os regulamentos não são para cumprir, e que a FPAK (à partida a entidade máxima a quem compete zelar pelo respetivo cumprimento) se demite, sem mais, de continuar a exercer a ação fiscalizadora que lhe está confiada, abrindo a caixa de pandora (a entrevista de 1 de abril não é alheia à notícia publicada quinze escassos dias depois que abre o presente trabalho) para uma verdadeira liberalização nos reconhecimentos das provas, para a qual Capelo não está mandatado, não está prevista em qualquer parte de todo o edifício regulamentar que a própria Federação fez aprovar para 2015, e nem sequer consta, tão-pouco, do ‘programa de governo’ com que a atual direção se apresentou a sufrágio no último ato eleitoral aos órgãos sociais da FPAK.

Se tudo isto somado já é profundamente perturbador, junte-se-lhe o facto da capitulação confessa do Diretor da FPAK para os Ralis quanto ao problema deitar completamente por terra o efeito dissuasor que qual norma regulamentar necessariamente produz quando a determinados comportamentos (no caso, a realização de reconhecimentos antes do tempo definido para os realizar) faz subsumir a respetiva sanção.

Dos mais altos dignatários dos Ralis em Portugal espera-se determinação e firmeza, nunca a capitulação perante situações pouco edificantes que têm marcado a modalidade, mancham a sua credibilidade, e perturbam de premeio a verdade desportiva.

Num quadro destes, manifestando Capelo falta de condições para continuar o trabalho no combate aos reconhecimentos antirregulamentares, dentro de uma certa ética e noção de serviço aos Ralis seria então de esperar que cedesse de imediato o lugar a qualquer outro agente que estivesse em melhores condições de levar a cabo tal missão (ou pelo menos demonstrasse férrea vontade nesse sentido).

À margem da espetacularidade dos carros e do virtuosismo dos nossos melhores pilotos (temos felizmente um acervo admirável de talentos a disputar as nossas provas e campeonatos), na subcave dos Ralis portugueses respira-se uma realidade pouco dada a mediatismos, onde comungam os velhos vícios e tiques de sempre, muitos interesses (por vezes conflituantes) em osmose plena, e em determinados setores uma crónica incapacidade em separar as águas do ponto de vista institucional, materializada em diversos dos mais destacados agentes da modalidade a claramente não destrinçar onde acaba o seu papel no enredo deste desporto e começa o do demais elenco.

Se a modalidade fosse autocrítica o suficiente para perceber e discutir os problemas que a toldam, desde abril do corrente ano que a alguém já teria ocorrido questionar se Joaquim Capelo tem condições para continuar a desempenhar o cargo que ocupa na estrutura da FPAK.

Em nossa opinião, por tudo o que desenvolvemos supra, dificilmente tem.

A autoridade disciplinar da Federação encontra-se agora ferida da morte.

Agravou-se uma certa fragilização da entidade máxima que dirige os destinos dos Ralis em Portugal (FPAK), aos olhos de todos os intervenientes direta ou indiretamente ligados à modalidade. 

O próprio Presidente da Federação, Manuel Mello Breyner, sai também chamuscado de todo este processo dado o silêncio a que se tem autorremetido sobre a questão, não se percebendo se cauciona a posição expressa por Capelo ou se dela discorda.

Não hostilizar em demasia os pilotos pode, de forma calculista, render dividendos no jogo de equilíbrios que irá operar nas próximas eleições aos órgãos sociais da Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, caso, como desejamos, apareça uma multiplicidade de ideias, programas e projetos a apresentar-se a sufrágio.

Cruzar os braços perante o problema dos reconhecimentos ilegais (que há muito são prática nos Ralis portugueses) é, em definitivo, prestar um mau serviço a este desporto.

Se Joaquim Capelo não tem no seio da Federação meios para debelar este quisto da modalidade, compete-lhe trabalhar para consegui-los ou ceder o seu lugar a quem esteja disposto e motivado a alcançá-los.

Tão simples quanto isto.

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Nota 1:
A falta de cultura democrática que o nosso país ainda tem bem presente em muitos setores, leva muitas vezes a que se confundam críticas institucionais com ataques de natureza pessoal. Nessa medida, para que não exista qualquer tipo de dúvida na interpretação que cada leitor fará relativamente ao fomos escrevendo ao longo deste trabalho, queremos deixar bem claro que nada no plano pessoal nos move contra Joaquim Capelo (que nem sequer temos a grata honra de conhecer), que temos total respeito pelo seu percurso desportivo na modalidade, e que relativamente ao qual não temos a menor dúvida tratar-se de pessoa proba, estimável e séria. Todo o elenco de críticas que agora damos à estampa não são, como nos parece evidente, contra a pessoa ou o cidadão Joaquim Capelo, antes dirigidas ao Diretor FPAK para os Ralis. Por vezes pode parecer a mesma coisa, mas não é.

Nota 2:
Por entendermos desde sempre que a crítica pela crítica é indesejável, e que só tem um tom construtivo quando vem acompanhada de soluções passíveis de corrigir os contextos objeto de análise, entendemos ser nosso dever em breve apresentar neste mesmo blogue algumas ideias eventualmente úteis para ajudar a ultrapassar, no todo ou em parte, o problema dos reconhecimentos ilegais dos Ralis em Portugal, algo que vamos concretizar numa das nossas próximas ‘P.E.C.’

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A FOTO PRESENTE NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://3.bp.blogspot.com/-Y0OvQM6jWuU/VM6RQwDKlNI/AAAAAAABFBI/TLNh9tfhPyk/s1600/DSC_6976%2Bc%C3%B3pia.jpg