quinta-feira, 28 de maio de 2015

P.E.C. Nº 302: Medo? Medo é cena que não lhes assiste...



Há duas semanas um grupo de pilotos e copilotos que competem de forma regular no campeonato nacional de Ralis alertou, de forma pública, para os perigos em matéria de segurança que constituem os três primeiros quilómetros da classificativa das Sete Cidades, integrada no Rali dos Açores a disputar no final da próxima semana. 

A chamada de atenção foi realizada de forma cordata e num tom que interpretamos como construtivo. 

Nenhum dos subscritores de tal manifesto (chamemos-lhe assim) referiu sequer equacionar não participar na prova (as presentes linhas estão a ser redigidas antes de se conhecer a lista oficial de inscritos), caso tal segmento, já há vários anos não utilizado em percurso cronometrado (justamente pela sua perigosidade, estamos em crer…), permaneça integrado dentro de dias na lendária especial da ilha de São Miguel, versão/2015. 

Alexandre Ramos, Carlos Martins, Diogo Salvi, Gil Antunes, João Correia, Luís Mota, Ricardo Teodósio e Paulo Babo expressaram uma opinião, revelando a frontalidade que, neste assunto em concreto, vai faltando a muitos outros seus pares que têm as mesmíssimas reservas quanto à segurança daqueles três quilómetros (alguns deles confidenciaram-nos isso mesmo em privado), mas que por interesse, para não gerar melindres, ou simplesmente por falta de coragem e solidariedade preferem primar pelo silêncio num assunto que também lhes toca diretamente, numa reminiscência da crónica falta de sentido de classe de quem compete que também é um dos problemas estruturais dos Ralis portugueses. 

A partir do arquipélago, as respostas que atravessaram o Atlântico oscila(ra)m entre o irresponsável, o risível, o arrogante e o infantil, sobretudo as provenientes do Diretor de Prova, António Andrade, e do Presidente do Grupo Desportivo e Comercial (entidade organizadora), Francisco Coelho, ampliada, claro está, por um coro ‘viral’ de pretensos adeptos de Ralis nas redes sociais, que da modalidade e das suas nuances manifestamente conhecem muito pouco ou nada. 

Podia-se esperar que os mais destacados responsáveis do Sata Rallye dos Açores dissessem estar em desacordo com os subscritores do 'polémico' (que de polémico tem muito pouco…) comunicado

Seria normal que ao alerta formulado pelos oito nomes atrás mencionados, de forma também pública passassem uma mensagem tranquilizadora, garantindo total segurança naquele local, designadamente no que respeita à queda dos carros várias centenas de metros a pique em caso de saída de estrada a grande velocidade. 

Porém, a estratégia adotada foi diferente. 

Assentou numa truculência inusitada, pouco condizente com uma prova internacional e integrada na segunda mais importante competição de Ralis em todo o mundo. 

O primeiro arremesso atirado contra os subscritores do manifesto dos oito passou por sugerir que teriam 'medo'

Nesta matéria socorramo-nos, por exemplo, de Paulo Babo

O experiente navegador de Marco de Canavezes já vi(ve)u um pouco de tudo em matéria de Ralis, das provas internas aos mais emblemáticos e difíceis palcos internacionais. 

Sentou-se ao lado de José Pedro Fontes a 200 quilómetros/hora nas rapidíssimas especiais de São Pedro de Moel, balizadas por pinheiros a meio-metro do asfalto, raciocínio que se aplica, com as necessárias diferenças, aos troços, entre outros, do Rali da Alemanha ou de França. 

Competiu em Arganil das ravinas mil. 

Andou a fundo na Finlândia dos 1000 lagos e dos 1000 saltos. 

Conhece, portanto, várias das mais conhecidas classificativas ao redor do planeta. 

Daquilo que conhecemos das intervenções públicas de Babo em matéria de Ralis, sempre retivemos um registo sereno, construtivo e particularmente lúcido na abordagem à modalidade. 

Sugerir-se, portanto, estarmos perante alguém com ‘medo’ de entrar num carro de Ralis para andar no limite, é um discurso no mínimo insultuoso para todos aqueles (os concorrentes) que se afirmam como o sustentáculo e a razão de ser de cada prova, raciocínio que também pode aproveitar, por exemplo, a Ricardo Teodósio, ironicamente conhecido por ser um dos mais temerários pilotos do plantel atual dos Ralis nacionais. 

Os cavalheiros Andrade e Coelho, secundados servilmente pelo antigo (?) piloto Luís Pimentel, lá continuaram a sua sanha arrogante contra os oito pilotos/copilotos atrás citados, por entre insinuações de 'problemas do foro emocional e psicológico' e a recomendação, boçal, de que se dediquem ‘à prática do golfe’

Ter consciência do perigo é diferente de ter ‘medo’

O condutor comum pode andar no seu carro do dia-a-dia a 200 quilómetros/hora sem quaisquer receios na ‘Segunda Circular’, na ‘EN 125’, ou na ‘VCI’, mas ainda assim ter noção dos elevados riscos que isso implica. 

Ao contrário do que António Andrade e Francisco Coelho ardilosamente tentaram fazer crer, não está, nem nunca esteve, em causa a segurança do Rali dos Açores, nem sequer a da especial das Sete Cidades

Aliás, nenhum dos subscritores do comunicado (à exceção de Salvi em 2014, que nos pareceu ao tempo uma voz isolada e talvez desacertada com a realidade) em anos anteriores beliscou uma vírgula que fosse quanto ao esquema de segurança do evento. 

As oito vozes que se levantaram nesta questão fizeram-no apenas relativamente à primeira cumeeira, correspondente aos três primeiros quilómetros da versão da lendária classificativa traçada para a edição do Sata Rallye dos Açores em 2015. 

Parece-nos evidente que se trata de um excerto de classificativa muito perigoso em caso de violenta saída de estrada, que nem as garantias de estreitamento do troço e a profusão de fardos de palha na respetiva berma sossegam na totalidade. 

Num quadro destes, com a obstinação da organização em manter em trajeto cronometrado os três quilómetros da celeuma, seria de esperar que a FPAK interviesse com alguma firmeza. 

Manuel de Mello Breyner deslocou-se aos Açores, mas fê-lo, na nossa leitura, mais como uma ação de pré-campanha com vista à reeleição no próximo escrutínio eleitoral que propriamente com o intuito de estancar em definitivo o problema. 

Em matéria de segurança não há possibilidade de acordos, concessões ou cedências: ou há, ou não há segurança, ponto. 

Ao invés de se deslocar ao arquipélago e, cerce, exigir do GDC garantias sólidas de que não há risco para a integridade física dos concorrentes naquele excerto cronometrado das Sete Cidades, transferindo para a organização do Rali o ônus da questão, Breyner apostou em não afrontar em demasia um reduto que lhe poderá render decisivos votos em próximos sufrágios eleitorais, lá referindo que o troço foi vistoriado pelos responsáveis pela segurança locais e internacionais, haverá um reforço da berma da classificativa com fardos/rolos de palha (não se percebeu se na totalidade do troço ou apenas no setor agora envolto em polémica), mas curiosamente nunca em momento algum se referiu diretamente ao comunicado em questão nem comentou a posição nele expressa pelas respetivos signatários. 

A controvérsia parece ter entretanto estancado. 

Pensamos que os oito pilotos e copilotos terão intuído ser preferível remeter-se ao silêncio e não alimentar um clima de beligerância de que a modalidade seguramente prescinde.

Talvez porque tenham percebido o estilo dos seus interlocutores. 

Talvez por respeito a uma instituição quase a celebrar as bodas de ouro

O Sata Rallye dos Açores é (e, confiamos, continuará a ser por muitos e bons anos…) um dos mais sensacionais Ralis do planeta, repleto de estradas soberbas para a prática deste desporto. 

Tem com inteira justiça uma projeção e prestígio internacional enormes, de que a região açoriana e o resto do país se devem fortemente orgulhar. 

Liderar um evento desta grandeza pressupõe ser-se sábio nas declarações que se profere e assertivo nas relações com quem rodeia a prova, sobretudo com quem paga, e bem, para nela participar e nessa medida ter toda a legitimidade para reivindicar elevados padrões de segurança. 

Ser o rosto de uma prova como o Sata Rally dos Açores pressupõe, em suma, estar-se à altura dos pergaminhos do evento. 

Tudo o que os cavalheiros Andrade e Coelho não conseguiram perceber neste episódio deveras escusado e claramente evitável.

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sábado, 16 de maio de 2015

P.E.C. Nº 301: Indo diretamente à Fonte(s) do 'problema'... (2.ª parte)


- continuação da 'P.E.C.' anterior -

 2.ª parte 

Os Ralis nacionais são um meio pequeno. 

Todas as pessoas se conhecem. 

Como em muitas comunidades por esse país fora, o circo da competição alimenta em alguns meandros (pouco expressivos) a conhecida maledicência e pequena inveja nacional.

Esses pequenos núcleos (que existem, não o escamoteemos…) olham para José Pedro Fontes como uma espécie de malquisto do automobilismo português em geral e dos Ralis lusos em particular. 

Fatores de vária ordem alimentam essa ‘malevolência’

Em primeiro lugar, o facto do agora líder do CNR (honraria a que chegou pela primeira vez na sua carreira após o Rali de Castelo Branco recentemente disputado) ser dos poucos pilotos no nosso país a ter um estatuto de verdadeiro profissional das corridas, capaz de a cada ano apresentar aos seus principais patrocinadores projetos credíveis e ganhadores. 

Num país onde encontrar apoios expressivos para o automobilismo é difícil, essa capacidade (e trabalho) de José Pedro Fontes gera um certo desconforto em alguns setores, que gostariam de reunir condições semelhantes às do atual vice-campeão nacional de Ralis e pura e simplesmente não conseguem. 

Uma análise ao currículo desportivo do piloto do Porto, recheado de mais de vinte anos de êxitos nas mais diversas disciplinas, não depõe apenas a favor da sua versatilidade de condução e adaptabilidade às mais diversas competições e géneros de carros.

Independentemente do que venha a conquistar até final da carreira, ele é hoje, aos trinta e nove anos, já portador de um dos mais expressivos palmarés da história do automobilismo português, sobretudo entre os pilotos que nunca ensaiaram com caráter regular uma internacionalização da carreira (não obstante, independentemente de circunstancialismos, ironicamente até deter títulos internacionais na sua sala de troféus)

No seu percurso pelas corridas estão registados bem mais triunfos e títulos que os constantes no palmarés de diversos outros pilotos que, por artes do inexplicável, caem melhor que o atual piloto oficial da DS/Citroen nos favores da imprensa ou na simpatia da generalidade dos adeptos. 

Fontes é objetivamente um piloto com sucesso, e o sucesso em Portugal, mesmo quando alavancado em muita inspiração e transpiração, é muitas vezes encarado com desconfiança quando não mesmo, ainda que não assumidamente, com grande desconforto. 

Por outro lado, o piloto portuense carrega sobre os ombros um dos labéus tão lusitanos que é ser filho de

Nem sempre ser filho de implica necessariamente que o respetivo apelido escancare as portas do êxito. 

Nas corridas ser filho de não produz automaticamente travagens no ponto certo ou trajetórias desenhadas na perfeição. 

José Pedro Fontes é filho de um dos grandes nomes do automobilismo português dos anos setenta e oitenta, mas assumindo a herança genética e os ensinamentos familiares soube, porém, autonomizar-se da sua filiação para se afirmar hoje muito mais como o Zé Pedro que propriamente como o filho de Rufino Fontes

A forma como o piloto ao serviço da DS/Citroen se enquadra no (por vezes difícil e fechado) mundo dos Ralis portugueses é outro dos aspetos que nos apraz salientar. 

Com longa experiência na modalidade, Fontes vem expressando publicamente há diversos anos uma noção muito pragmática daquilo que deveria constituir um modelo equilibrado e sustentável de campeonato nacional de Ralis, direcionando não raras vezes o seu discurso para a valorização dos principais adversários, matéria que nos parece ser de sublinhar na medida em que uma das formas de promover este desporto (também) passa, e muito, por publicamente difundir o talento e mérito dos ases do volante (temo-los felizmente em número abundante) que produzem o espetáculo. 

Em complemento ao que se referiu há, depois, os aspetos de natureza competitiva e a forma como aborda as corridas propriamente ditas. 

Uma das características que há muito nos impressiona em Fontes é a espantosa capacidade de adaptação a novas realidades, sobretudo a carros das mais distintas origens e filosofias. 

Em abstrato entre piloto e automóvel de competição desenvolve-se invariavelmente um clima de tensão

O homem (ou mulher) pretende a máquina ajustada ao seu estilo de condução, algo que muitas vezes não é compaginável com as caraterísticas de pilotagem que o automóvel necessita para ser rápido. 

José Pedro é, nesta matéria, um hábil e astuto negociador com os carros de corrida que tripula, cedendo dentro do possível à natureza dos bólides como forma de extrair deles todo o potencial que possam oferecer. 

A enorme capacidade de adaptação a novas situações, e a rápida perceção (aliada a muito trabalho e treino) de como maximizar o que um bólide pode atingir em matéria de competitividade, são dois dos grandes trunfos do atual campeão da categoria RGT, aos quais se junta uma preparação minuciosa de cada Rali. 

As provas de estrada sempre se caraterizaram pela capacidade de ajustar andamentos em função de determinados contextos. 

Há, se quisermos, diversos Ralis dentro de cada Rali. 

O idílio romântico do flatout permanente desde o primeiro ao último quilómetro de prova não existe, ou quando existe dá bons resultados numa minoria de ocasiões. 

Há que avaliar previamente, dentro de cada tipo de Rali e das respetivas caraterísticas, os momentos certos para andar a fundo e as fases em que o piloto se deve resguardar colocando-se a salvo de contratempos. 

Em suma: há que ter uma estratégia delineada e capacidade de executá-la. 

José Pedro Fontes, nas declarações produzidas publicamente em jeito de rescaldo aos Ralis de Guimarães e de Castelo Branco, foi elucidativo quando explicou quais os troços que selecionou para atacar procurando fazer a diferença (as tabelas de tempos mostram que foi precisamente aí que cimentou a liderança em ambos os Ralis), e onde apostou em jogar pelo seguro para não comprometer as suas pretensões. 

A tática escolhida mostrou-se correta: pelo menos os resultados (duas vitórias) assim o demonstram, não obstante a excelente réplica dada por João Barros no Minho e Beira Baixa. 

Fontes não tem nada a provar relativamente à aptidão para disputar Ralis em parâmetros elevadíssimos de competitividade. 

Já foi em três ocasiões vice-campeão nacional absoluto (2007, 2008 e 2014)

Tem outros tantos títulos averbados no seu palmarés (em 2005 nas categorias S1600 e Turismos; em 2014 na categoria RGT)

Lidera atualmente a tabela pontual do campeonato nacional reservado a pilotos, e é seguramente um dos mais sérios candidatos ao cetro máximo no final do ano. 

Com este e o anterior trabalho não se pretende de forma alguma embarcar em exercícios comparativos entre pilotos, tão-pouco glorificar o José Pedro Fontes ou depreciar os seus principais rivais (vários deles também com tremenda qualidade)

O nosso intento, pelas ideias que fomos desenvolvendo, passa acima de tudo por fornecer alguns dados e detalhes, vários deles por vezes desconhecidos do grande público ou de análise pouco cuidada pelos adeptos de Ralis, que ajudam a compreender a forma como se constroem os pilares de um palmarés repleto de vitórias e honrarias. 

Acabamos como começámos. 

Alguns (reduzidos) núcleos dos Ralis portugueses alimentaram (sobretudo) em 2014 uma mensagem quase subliminar, assente na hiperbolização das performances de um carro (o Porsche 997 GT3 que (ou)vimos nos troços nacionais) como forma de desvalorizar a mestria de quem o pilotou. 

Uma vez que os indicadores que vão sendo fornecidos em 2015 dão conta que não é pelo carro que o piloto (agora) ao serviço da DS/Citroen vence e domina Ralis, não se estranhará que tais núcleos possam em breve vir a terreiro talvez reivindicar a interdição de carros oficiais no campeonato nacional e Ralis, ou quiçá mesmo até, hipótese a não descartar, sugerir a proibição em definitivo e com efeitos imediatos da participação de José Pedro Fontes em provas da modalidade no nosso país…

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Mera curiosidade estatística. 

José Pedro Fontes detém sete triunfos em termos absolutos no CNR até à data (2008: Rali Casinos do Algarve. 2010: Rali Centro de Portugal. 2014: Rali da Vinho Madeira, Rali Vidreiro, Rali Cidade de Castelo Branco. 2015: Rali Cidade de Guimarães, Rali de Castelo Branco)

Já em 2015, conseguiu o feito de ter obtido tal somatório de vitórias acompanhado de quatro navegadores diferentes (a saber: António Costa, Paulo Babo, Inês Ponte e Miguel Ramalho), empatando nesse item com José Miguel Leite Faria, que ostentando nove triunfos no seu palmarés em provas pontuáveis para o campeonato nacional de Ralis (1988: Rali Alto Tâmega. 1991: Rali Sopete/Póvoa de Varzim, Rali das Camélias, Rali Alto Tâmega. 1992: Rali Esso Futebol Clube do Porto, Rali Rota do Sol. 1993: Rali Esso Futebol Clube do Porto, Rali dos Açores. 1995: Rali dos Açores/BCA), partilhou-os com António Manuel, Luís Lisboa, Carlos Magalhães e Ricardo Caldeira

Leite Faria e Fontes em toda a história do nacional de Ralis (desde 1966) só são superados neste particular por Américo Nunes, que nos dezasseis triunfos à geral (1967: Volta a Portugal, 1000 kms do Benfica. 1968: Volta a Portugal, 1000 kms do Benfica. 1969: Rali das Camélias, Volta à Madeira. 1970: Rali das Camélias, Rali Rainha Santa, Volta ao Minho, Rali da Montanha, Volta à Madeira. 1971: Volta a Portugal, Rali das Camélias. 1973: Rali Rainha Santa. 1977: Volta à Madeira. 1978: Rali Rota do Sol) registados no seu palmarés, fê-lo tendo como parceiros cinco copilotos distintos (Evaristo Saraiva, João Batista, Fernando Fonseca, F. Castelo Branco e António Morais), sendo nesta matéria o mais ‘versátil’ piloto de sempre Giovanni Salvi, que nas nove vitórias à geral inscritas no respetivo currículo desportivo (1971: Rali às Antas, Rali Rainha Santa, Rali da Montanha, Volta à Madeira. 1973: Volta ao Minho, Volta a São Miguel. 1976: Volta a São Miguel, Volta à Madeira. 1978: Rali da Figueira da Foz) partilha os louros com seis penduras que dão pelo nome de Pedro de Almeida, José Ferreira, José Arnaud, Barbosa da Costa, Luigi Valle e António Morais.

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domingo, 3 de maio de 2015

P.E.C. Nº 300: Indo diretamente à Fonte(s) do 'problema'... (1.ª parte)


 1.ª parte 

Na agenda dos Ralis nacionais no pretérito ano de 2014, um dos assuntos que mais debate (e controvérsia) gerou foi o Porsche 997 GT3 da equipa Sports & You, então guiado pelo José Pedro Fontes tendo como navegadora Inês Ponte

O automóvel alemão se não teve outros méritos abalou pelo menos as estruturas de um certo establishment da modalidade, a ponto de se ter ouvido diversas vozes reivindicando a penalização das suas performances (através de lastragens, por exemplo), quando não mesmo a interdição pura e simples da viatura dos resultados e pontuações do campeonato nacional de Ralis, alegadamente por ter por si só um nível de prestações bem acima dos demais carros (sobretudo, claro está, os R5 e S2000) que estiveram na refrega pelas vitórias e título na pretérita temporada. 

Abrimos um parêntesis para referir que desde que nos descobrimos compulsivos aficionados de automobilismo, há cerca de trinta anos, sempre nutrimos uma predileção muito especial por este automóvel. 

As gerações de veículos de competição passam, as corridas de carros mudam ano após ano, mas o Porsche tem sabido evoluir e atualizar-se sem descurar a sua matriz genética, afirmando-se como um ícone em todo o género de modalidades, do Dakar a Le Mans, de Silverstone, Monza, Paul Ricard ou Nordschleife, até São Pedro de Moel, sempre, nas pistas, nos troços, ou nas estradas do dia-a-dia, com um cartão-de-visita admirável virado para premiar a habilidade e talento de quem se senta ao volante. 

Como se escreveu acima, no ano passado foi sendo paulatinamente alimentada em alguns setores uma narrativa virada para a pretensa imbatibilidade da máquina preparada pela Sports & You no âmbito das provas de asfalto do CNR

O bólide alemão fez a sua estreia à segunda jornada do campeonato, em Guimarães. 

Perdeu, naturalmente, na superespecial de abertura da prova (o que desde logo permite colocar alguns pontos de interrogação quanto à aura de invencibilidade que alguns setores lhe quiseram atribuir), e no final da terceira classificativa (José Pedro Fontes e Inês Ponte desistiriam na PEC n.º 4 após despiste) liderava a prova com vinte e cinco segundos de vantagem sobre o segundo classificado, volvidos pouco mais de vinte e sete quilómetros cronometrados, disputados no respetivo total (incluindo já a lenta superespecial) à rapidíssima média de 110 kms/hora. 

Percebe-se, fazendo as contas, que em troços muito rápidos e com piso seco o 997 mostrou-se de facto muito eficaz, adquirindo vantagem relativamente aos concorrentes diretos à razão de um segundo por quilómetro. 

A poderosa máquina germânica fez a sua reaparição no Rali Vidreiro, quinta jornada do CNR/2014

Logo no troço inaugural, o rapidíssimo ‘Farol’, o piso húmido (que não completamente molhado) forneceu um dado inelutável para análise: vitória para Ricardo Moura e António Costa aos comandos do Fiesta R5, tornando desde logo periclitante a defesa da superioridade pura e simples do Porsche em qualquer terreno e perante qualquer adversário, ideia reforçada, aliás, pela divisão de vitórias em que o açoriano e Fontes se envolveram durante a prova, designadamente nas especiais desenhadas no eixo Leiria/Ourém. 

Seguiu-se em matéria de campeonato o Rali da Madeira, e nas antevisões da prova o grosso das apostas para o triunfo recaia no Porsche do preparador nortenho. 

Tiro de pólvora seca. 

Após um duelo intensíssimo com os Magalhães (Bruno e Carlos) e o Peugeot 208 T16 R5, o GT alemão perdeu o Rali por quatro segundos, triunfou ‘apenas’ num terço dos troços que compuseram a prova e liderou a classificação geral 'somente’ em quatro das dezoito classificativas. 

Se antes, analisando com rigor as circunstâncias em que se foram desenrolando os Ralis, já era algo ‘periclitante’ o conceito de supremacia do Porsche, depois do evento insular, pelo menos para os mais atentos, começou a desenhar-se uma perceção de que afinal não era exatamente assim. 

Mortágua foi a etapa seguinte no CNR disputado no ano passado, prova marcada por uma série de ausências importantes (Meireles e Moura, sobretudo estes) que limitaram às contas do triunfo ao duelo Fontes vs Barros

E que duelo! 

Se é certo que nas especiais mais rápidas e longas o Porsche fez valer a sua potência e velocidade de ponta, e condescendendo que contratempos mecânicos terão comprometido irremediavelmente a vitória que se adivinhava, certo é que na dupla passagem pela classificativa de Trezoi, estreita e sinuosa em alguns pontos, João Barros averbou dois melhores cronos, vincando a sua rapidez e explorando a melhor maleabilidade do Fiesta face a uma certeza dureza de rins do 997 GT3.

Castelo Branco, derradeira etapa do ano passado em matéria de CNR, não é barómetro fiável, uma vez que Moura não compareceu, Meireles disse presente na lista de inscritos mas desistiu após o primeiro troço, e João Barros pouco mais duraria em prova deixando o bólide da Sports & You numa evidente zona de conforto para gerir o Rali a seu bel-prazer

Em fecho de temporada, a Taça de Portugal

Nas estradas traçadas junto ao Autódromo Internacional do Algarve e à Serra de Monchique, o Porsche foi confiado às mãos (também) hábeis de Carlos Martins

O piloto de Serpa seria então claro e concludente na avaliação à máquina teutónica: “o principal é a dificuldade que estou a sentir em impor ritmo e andar depressa, não é um carro fácil, requer muita adaptação, e a adaptação trás a confiança. Neste momento estou mais preocupado em adaptar-me, não quero olhar para o relógio, quero é ter as sensações para que possa andar sem correr riscos. É um pouco mais difícil do que eu pensava, Este carro tem uma forma de andar muito própria, isso só vem com o tempo e com os quilómetros. Tive uma toada muito cautelosa, diria que estamos três ‘furos’ abaixo do ritmo. Não me senti à vontade nem a travar, nem a curvar, quero descobrir o carro a pouco" (ver declarações AQUI), tudo isto, acrescentamos nós, num cenário onde algumas das classificativas tinham segmentos rapidíssimos (favoráveis ao 997), e onde nem aí a pretensa ‘imbatibilidade’ do carro fez valer a sua lei. 

Parece-nos ficar claro, pelo que se escreveu atrás, que o Porsche é um produto de determinados contextos, nos quais tira vantagem competitiva. 

Não é, por si só e em qualquer circunstância, um automóvel capaz de permitir melhores performances que os seus rivais com a roupagem R5

O Porsche que em 2014 era para banir das classificações do CNR por não ter concorrência à altura quanto a prestações desportivas, é a mesmíssima viatura que anda na presente temporada regularmente atrás de grupos N (não obstante os evidentes e auspiciosos progressos que Gil Freitas deu mostras nos Ralis de Guimarães e Castelo Branco no corrente ano)

O clamor de vozes que no ano passado se levantou contra o bólide alemão nas provas nacionais, é o mesmo que não manifestou qualquer esboço de protesto logo que se soube que Gil Freitas e Carlos Vieira iriam participar no campeonato RGT em 2015. 

Porque em rigor na transata temporada o Porsche não foi, como alguns quadrantes tenta(ra)m fazer crer, o grande problema dos Ralis nacionais. 

O problema foi (é?) de outra ordem e tem nome muito concreto: chama-se José Pedro Fontes.

- continua... -

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