P.E.C. Nº 324: Prevenção e segurança

Ensinam os manuais de ciência política que quando se tem entre mãos um assunto que não se quer resolver, ou, pelo menos, que se pretende adiar enquanto for possível, o melhor mesmo é indigitar um grupo de trabalho, uma comissão de inquérito, ou qualquer outra designação análoga que, em linhas gerais, signifique na prática mais ou menos o mesmo. 

A ideia tem quase sempre subjacente um conteúdo ‘político’

Dá-se a entender que se está a trabalhar sobre a questão, que há interesse em solucioná-la, que até se nomeia um conjunto de pessoas idóneas para promover reflexão e sugestões sobre a mesma, apostando-se em simultâneo que o decurso do tempo faça o seu caminho e o assunto acabe por cair no esquecimento coletivo. 

Não vamos tão longe ao sugerir que a FPAK, quando muito recentemente criou um grupo de trabalho com vista a, passamos a citar, «inspecionar e verificar atempadamente as condições de segurança de provas que se realizem em estrada» (leia-se Rampas e Ralis, adenda nossa…), pretenda protelar no tempo a implementação de medidas tendentes a que o automobilismo português se torne mais seguro para concorrentes e público. 

Mais: acreditamos que a entidade federativa tem no centro das suas preocupações dotar as provas de estrada (no caso que nos interessa, os Ralis) de todos os mecanismos que possam evitar tragédias como a que há semanas ocorreu na Galiza. 

No lacónico comunicado publicado para o efeito (ler AQUI), ficou a saber-se que há três nomes que irão gerir no terreno este dossiê: Ni Amorim, Carlos Mateus e Fernando Prata

E que a criação deste grupo de trabalho é decorrência direta de uma recomendação emanada pela FIA para o efeito. 

Sobre o tema há algumas interrogações que parecem levantar-se e que carecerão de esclarecimento detalhado. 

Primeira dúvida: quem paga

Uma vez que não nos parece que os elementos que constituem o grupo de trabalho estejam na disponibilidade de custear do próprio bolso as deslocações ao extenso número de provas que constituem todos os campeonatos de Ralis em Portugal (nem isso seria sério e correto, diga-se…), conviria perceber se este encargo vai recair sobre os ombros dos organizadores (que vêem-se desejam-se, em muitas ocasiões sem sucesso, para garantir equilíbrio de contas no final dos seus Ralis, sem esquecer sequer os diversos exemplos de provas nos últimos anos canceladas por falta de concorrentes…), ou se vai ser criada uma, digamos, ‘sobretaxa’ aos concorrentes, a somar aos valores de inscrição nos Ralis que já são por definição algo ‘austeros’ para a nossa realidade. 

Claro que o melhor mesmo, já que aludimos a questões de fiscalidade, seria mandar a fatura para pagamento ao cuidado do Jean lá para Paris. 

Se o nosso querido amigo Manuel de Mello Breyner se decidir por esta hipótese, então talvez seja, desde logo, de emiti-la com o número de contribuinte do pequeno Napoleão, pois talvez, quem sabe, até possa ser dedutível nas despesas do IRS lá para os lados da França. 

Outra questão que não fica suficientemente esclarecida é o momento em que os elementos do grupo de trabalho irão ‘inspecionar e verificar antecipadamente as condições de segurança’ das provas

Antecipadamente significa exatamente o quê? 

Antes de haver público, polícia e marshalls ao longo das classificativas, sabendo-se que só se consegue aferir do bom ou mau posicionamento dos espetadores muito poucos minutos antes dos primeiros concorrentes começarem a passar? 

Antes dos carros estarem no parque de assistência, prescindindo-se da observação minuciosa das máquinas para verificar se os componentes de segurança ativa e passiva estão em correto funcionamento? 

Não estará aqui, pelo menos em tese, potenciado um choque e sobreposição de competências entre os elementos do grupo de trabalho e os observadores da FPAK na questão do público? 

E entre os elementos do grupo de trabalho e o comissariado técnico de cada prova quanto à matéria de segurança dos veículos? 

Questões a clarificar rapidamente, sobretudo quando, de acordo com a informação que entretanto colhemos, até já terá começado o trabalho dos elementos indigitados para a missão em causa, com a presença de Carlos Mateus no Constálica Rallye Vouzela recentemente disputado. 

Além das já enunciadas, há outras ordens de razão para analisar nesta temática. 

A honorabilidade de Amorim, Mateus e Prata de forma alguma deve ser colocada em causa. 

São antigos e ilustres praticantes da modalidade. 

Não duvidamos que vão com empenho emprestar ao serviço desta causa todas as suas vastas competências e conhecimentos na área da segurança do automobilismo. 

Todavia, Ni Amorim não faz Ralis talvez há umas três dezenas de anos. 

Fernando Prata, por exemplo, após uma carreira extraordinária não entra em competição nas provas de estrada desde 2007. 

O envolvimento de ambos na modalidade já é algo distante no tempo, e feito num paradigma de segurança necessariamente distinto do atual. 

Faltar-lhes-á, receamos nós, algum perfume a Ferodo que só se adquire e entranha com presença regular nos Parques de Assistência, pelo que, atentas estas nuances, talvez fosse preferível arregimentar para este trabalho de «inspeção das condições de segurança» dos diversos Ralis personalidades (há muitas com esse perfil) mais diretamente ligadas e com maior conhecimento de causa deste desporto no momento presente

Em abstrato, um grupo de trabalho tem mais condições de laborar corretamente quando lhe é concedida total liberdade de ação. 

A credibilização dos resultados que produz é sempre maior quando tem independência funcional das cúpulas de um qualquer núcleo de poder. 

Ora o sinal que a FPAK dá, ao arregimentar para a causa um dos seus principais dirigentes (Ni Amorim, vice-presidente da respetiva direção) é precisamente no sentido contrário: o de que o grupo de trabalho opera na dependência da Federação e, numa leitura mais conspirativa que alguém queira construir, a soldo dos interesses que ela possa ter. 

Ao intervir a reboque de uma ‘recomendação’ provinda da FIA, a FPAK em matéria de segurança colocou-se numa posição de especial fragilidade, sinalizando aos agentes direta ou indiretamente ligados à modalidade que não tem, ou pelo menos não demonstra ter, uma estratégia de fundo própria para minimizar os riscos contra a integridade física de concorrentes e público nas provas de Ralis em Portugal

A FPAK que, após o lembrete da FIA, interveio com inusitada rapidez na questão da segurança das provas de estrada, é a mesma FPAK que historicamente sempre alimentou o estranho desígnio de manter secretos os relatórios dos observadores aos Ralis nacionais, que se fossem, como deviam ser, tornados públicos, ajudariam a compreender quem é que em matéria organizativa aposta firme no item da segurança, e quem, pelo contrário, aligeira essa vertente do caderno de encargos para colocar um evento na estrada.

Entendamo-nos: quanto a segurança há ralis e Ralis, consideração que atravessa transversalmente as provas que se realizam nos diversos campeonatos do nosso país, do CNR até aos denominados Troféus Ralis Sprint

Nas provas de menor expressão, onde o problema da segurança se coloca com maior acuidade, atribuir federativamente uma espécie de carta de foral aos antigos Ralis Pirata, conferindo-lhes uma certa identidade legal, não implicou diretamente, em muitos casos, um aumento do grau de exigência quanto aos equipamentos de proteção da tripulação dentro dos carros, ou à colocação do público na berma dos troços. 

Se existem diversos Ralis Sprint com níveis organizativos francamente bons (o atrás citado Constálica Rally Vouzela é disso em ótimo exemplo, começando a justificar-se que a prova da zona de Lafões seja integrada em competições com maior relevo), muitas outras situações há em que a incúria no plano da segurança é elevada. 

É nestes últimos eventos que aparecem por vezes automóveis com um roll-bar tão resistente quanto a armação da canadiana de campismo que Zona-Espectáculo tinha há uns vinte e cinco anos. 

É nestes últimos que, em algumas ocasiões, podemo-nos deparar com pilotos que envergam fatos de competição com a mesma capacidade ignífuga da farda de trabalho de um qualquer cantoneiro a fazer a manutenção das estradas portuguesas. 

Provas há em que o sistema Hans parece tão desaparecido quanto os euros nos cofres do Estado português. 

A prevenção que o grupo de trabalho agora proposto pela FPAK pode ser positiva. 

Mas uma fiscalização incisiva e, se necessário, severa, separando o trigo do joio e interditando pura e simplesmente a organização de Ralis a quem negligencie a questão central da segurança, do campeonato nacional às competições regionais, parece-nos crucial. 

Para que desfechos trágicos como os que ocorreram no nosso país em 2014 não se repitam. 

Para que um tributo sincero à memória do piloto Nuno Silva, falecido o ano passado em Abadim/Cabeceiras, possa fazer-se colhendo ensinamentos das circunstâncias que levaram ao seu desaparecimento. 

Para que o jargão inconclusivo e por vezes tão conveniente do ‘mero incidente de corrida’ seja erradicado dos relatórios elaborados por quem tem a missão e dever funcional de levar ao limite a compreensão das causas que potenciam tragédias como a que ocorreu em Guimarães, também em 2014. 

O decurso do tempo permitirá avaliar da bondade da criação deste grupo de trabalho, e será barómetro fiável para se perceber da relevância da respetiva ação junto das entidades organizadoras de Ralis.

No fundo, se é medida efetiva para ajudar a mudar muitos dos aspetos que no plano da segurança continuam a funcionar mal nas provas de estrada do nosso país.

Ou se não passa de uma medida para inglês (ou melhor: francês) ver.

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A FOTO PUBLICADA NESTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
http://www.lusomotores.com/images/stories/2013/LUSOMOTORES/FPAK-PaginaOnline01.jpg

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