P.E.C. Nº 300: Indo diretamente à Fonte(s) do 'problema'... (1.ª parte)


 1.ª parte 

Na agenda dos Ralis nacionais no pretérito ano de 2014, um dos assuntos que mais debate (e controvérsia) gerou foi o Porsche 997 GT3 da equipa Sports & You, então guiado pelo José Pedro Fontes tendo como navegadora Inês Ponte

O automóvel alemão se não teve outros méritos abalou pelo menos as estruturas de um certo establishment da modalidade, a ponto de se ter ouvido diversas vozes reivindicando a penalização das suas performances (através de lastragens, por exemplo), quando não mesmo a interdição pura e simples da viatura dos resultados e pontuações do campeonato nacional de Ralis, alegadamente por ter por si só um nível de prestações bem acima dos demais carros (sobretudo, claro está, os R5 e S2000) que estiveram na refrega pelas vitórias e título na pretérita temporada. 

Abrimos um parêntesis para referir que desde que nos descobrimos compulsivos aficionados de automobilismo, há cerca de trinta anos, sempre nutrimos uma predileção muito especial por este automóvel. 

As gerações de veículos de competição passam, as corridas de carros mudam ano após ano, mas o Porsche tem sabido evoluir e atualizar-se sem descurar a sua matriz genética, afirmando-se como um ícone em todo o género de modalidades, do Dakar a Le Mans, de Silverstone, Monza, Paul Ricard ou Nordschleife, até São Pedro de Moel, sempre, nas pistas, nos troços, ou nas estradas do dia-a-dia, com um cartão-de-visita admirável virado para premiar a habilidade e talento de quem se senta ao volante. 

Como se escreveu acima, no ano passado foi sendo paulatinamente alimentada em alguns setores uma narrativa virada para a pretensa imbatibilidade da máquina preparada pela Sports & You no âmbito das provas de asfalto do CNR

O bólide alemão fez a sua estreia à segunda jornada do campeonato, em Guimarães. 

Perdeu, naturalmente, na superespecial de abertura da prova (o que desde logo permite colocar alguns pontos de interrogação quanto à aura de invencibilidade que alguns setores lhe quiseram atribuir), e no final da terceira classificativa (José Pedro Fontes e Inês Ponte desistiriam na PEC n.º 4 após despiste) liderava a prova com vinte e cinco segundos de vantagem sobre o segundo classificado, volvidos pouco mais de vinte e sete quilómetros cronometrados, disputados no respetivo total (incluindo já a lenta superespecial) à rapidíssima média de 110 kms/hora. 

Percebe-se, fazendo as contas, que em troços muito rápidos e com piso seco o 997 mostrou-se de facto muito eficaz, adquirindo vantagem relativamente aos concorrentes diretos à razão de um segundo por quilómetro. 

A poderosa máquina germânica fez a sua reaparição no Rali Vidreiro, quinta jornada do CNR/2014

Logo no troço inaugural, o rapidíssimo ‘Farol’, o piso húmido (que não completamente molhado) forneceu um dado inelutável para análise: vitória para Ricardo Moura e António Costa aos comandos do Fiesta R5, tornando desde logo periclitante a defesa da superioridade pura e simples do Porsche em qualquer terreno e perante qualquer adversário, ideia reforçada, aliás, pela divisão de vitórias em que o açoriano e Fontes se envolveram durante a prova, designadamente nas especiais desenhadas no eixo Leiria/Ourém. 

Seguiu-se em matéria de campeonato o Rali da Madeira, e nas antevisões da prova o grosso das apostas para o triunfo recaia no Porsche do preparador nortenho. 

Tiro de pólvora seca. 

Após um duelo intensíssimo com os Magalhães (Bruno e Carlos) e o Peugeot 208 T16 R5, o GT alemão perdeu o Rali por quatro segundos, triunfou ‘apenas’ num terço dos troços que compuseram a prova e liderou a classificação geral 'somente’ em quatro das dezoito classificativas. 

Se antes, analisando com rigor as circunstâncias em que se foram desenrolando os Ralis, já era algo ‘periclitante’ o conceito de supremacia do Porsche, depois do evento insular, pelo menos para os mais atentos, começou a desenhar-se uma perceção de que afinal não era exatamente assim. 

Mortágua foi a etapa seguinte no CNR disputado no ano passado, prova marcada por uma série de ausências importantes (Meireles e Moura, sobretudo estes) que limitaram às contas do triunfo ao duelo Fontes vs Barros

E que duelo! 

Se é certo que nas especiais mais rápidas e longas o Porsche fez valer a sua potência e velocidade de ponta, e condescendendo que contratempos mecânicos terão comprometido irremediavelmente a vitória que se adivinhava, certo é que na dupla passagem pela classificativa de Trezoi, estreita e sinuosa em alguns pontos, João Barros averbou dois melhores cronos, vincando a sua rapidez e explorando a melhor maleabilidade do Fiesta face a uma certeza dureza de rins do 997 GT3.

Castelo Branco, derradeira etapa do ano passado em matéria de CNR, não é barómetro fiável, uma vez que Moura não compareceu, Meireles disse presente na lista de inscritos mas desistiu após o primeiro troço, e João Barros pouco mais duraria em prova deixando o bólide da Sports & You numa evidente zona de conforto para gerir o Rali a seu bel-prazer

Em fecho de temporada, a Taça de Portugal

Nas estradas traçadas junto ao Autódromo Internacional do Algarve e à Serra de Monchique, o Porsche foi confiado às mãos (também) hábeis de Carlos Martins

O piloto de Serpa seria então claro e concludente na avaliação à máquina teutónica: “o principal é a dificuldade que estou a sentir em impor ritmo e andar depressa, não é um carro fácil, requer muita adaptação, e a adaptação trás a confiança. Neste momento estou mais preocupado em adaptar-me, não quero olhar para o relógio, quero é ter as sensações para que possa andar sem correr riscos. É um pouco mais difícil do que eu pensava, Este carro tem uma forma de andar muito própria, isso só vem com o tempo e com os quilómetros. Tive uma toada muito cautelosa, diria que estamos três ‘furos’ abaixo do ritmo. Não me senti à vontade nem a travar, nem a curvar, quero descobrir o carro a pouco" (ver declarações AQUI), tudo isto, acrescentamos nós, num cenário onde algumas das classificativas tinham segmentos rapidíssimos (favoráveis ao 997), e onde nem aí a pretensa ‘imbatibilidade’ do carro fez valer a sua lei. 

Parece-nos ficar claro, pelo que se escreveu atrás, que o Porsche é um produto de determinados contextos, nos quais tira vantagem competitiva. 

Não é, por si só e em qualquer circunstância, um automóvel capaz de permitir melhores performances que os seus rivais com a roupagem R5

O Porsche que em 2014 era para banir das classificações do CNR por não ter concorrência à altura quanto a prestações desportivas, é a mesmíssima viatura que anda na presente temporada regularmente atrás de grupos N (não obstante os evidentes e auspiciosos progressos que Gil Freitas deu mostras nos Ralis de Guimarães e Castelo Branco no corrente ano)

O clamor de vozes que no ano passado se levantou contra o bólide alemão nas provas nacionais, é o mesmo que não manifestou qualquer esboço de protesto logo que se soube que Gil Freitas e Carlos Vieira iriam participar no campeonato RGT em 2015. 

Porque em rigor na transata temporada o Porsche não foi, como alguns quadrantes tenta(ra)m fazer crer, o grande problema dos Ralis nacionais. 

O problema foi (é?) de outra ordem e tem nome muito concreto: chama-se José Pedro Fontes.

- continua... -

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A FOTO DE ABERTURA DO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://autosport.pt/iv/1/163/115/opao1fontes-2-263a.jpg

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