terça-feira, 2 de dezembro de 2014

P.E.C. Nº 284: O estranho caso de Robert Kubica...


Robert Kubica é um dos mais estranhos casos (por isso mesmo interessante de analisar) do mundo dos Ralis nos últimos anos.

Tipificar o polaco enquanto piloto nesta modalidade é tarefa complexa, na medida em que a aferição da sua real-valia e o que eventualmente lhe pode reservar o futuro esbarram (muitas vezes, em sentido literal) com demasiada frequência no fundo de uma qualquer ravina ou declive, fruto da impressionante coleção de despistes que vai amealhando na sua carreira desportiva.

O piloto (ainda?) ao serviço da M-Sport é portador daquilo que se convencionou apelidar de talento-inato.

Sabe guiar com qualidade, naquilo que são os pontos ideais de travagem, a noção de inserção do automóvel em curva, a precisão de trajetória, ou o momento ideal de acelerar.

Domina como poucos, se quisermos, os fundamentos da condução veloz, pedindo poucas meças nesse quesito à elite deste desporto.

No entanto, há em Kubica um problema por decifrar.

Os Ralis sabe-se não serem propriamente pera-doce.

Em troço não há por perto placa amiga avisando a distância até à próxima curva.

Não há corretores a sinalizar o limite da estrada.

O copiloto anuncia como é a estrada, mas não pode antecipar como está a estrada.

Com tantos desafios que se colocam a quem compete neste desporto, muita da aprendizagem faz-se na base do conhecimento empírico, adquirido através do processo de tentativa e erro.

Kubica, relativamente ao qual não poderemos esquecer nunca as limitações físicas que lhe toldam reflexos e movimentos, bem como a relativa inexperiência nestas andanças nos Ralis ao mais alto nível, estará a atravessar esse momento.

Até ao final da época 2014, o antigo piloto de F1 averbou catorze presenças em provas do mundial ao volante de carros com a especificação WRC.

Nessas catorze participações, contabilizamos dezasseis saídas de estrada que, ou o levaram ao abandono (eventualmente minoradas pelo recurso ao Rally2), ou no mínimo o fizeram perder diversos minutos antes de retomar a prova.

Numa escala de probabilidades, isto significa que uma equipa que o mantenha sob contrato sabe de antemão que o polaco em cada prova irá ter (pelo menos) um acidente.

É uma incógnita o futuro desportivo de Kubica, estruturalmente, parece-nos, antes de mais um piloto de velocidade talhado para rodar a fundo e em modo repetitivo nas corridas em circuito fechado.

Ora a ideia da condução permanentemente no limite e de forma padronizada, é precisamente uma premissa para qual as provas de estrada, de forma diríamos natural, franzem a sobrancelha.

Não obstante tudo o que escrevemos, um olhar pelas estatísticas até nos demonstra que Robert tem títulos importantes nos Ralis.

Em 2013 foi quem reivindicou para si o cetro do WRC2, num contexto, é certo, especialmente mais favorável que a tremenda competitividade que pautou a ‘segunda divisão’ do WRC na temporada do corrente ano.

Mais confiante e experiente, seria expectável que o nativo de Cracóvia se apresentasse na primeira temporada completa aos comandos de um carro de topo a incrementar as suas prestações desportivas, trilhando sustentadamente uma via de aproximação aos melhores pilotos do mundo em matéria de resultados.

Claramente não conseguiu.

O ano de 2014 até começou de forma assaz promissora, com uma vitória ‘no braço’ no Janner Rallye, prova de abertura do campeonato da Europa de Ralis, naquilo que indiciava ser uma auspiciosa preparação para Monte Carlo.

Um brilharete circunstancial nas montanhas ao redor do principado, quando venceu as duas primeiras classificativas após escolha de pneus acertada (em função da informação já existente após as passagens dos primeiros concorrentes na estrada) e por via disso liderou a prova, fazia antever proezas assinaláveis que foram sol (ou se calhar gelo…), de pouca dura.

Kubica ao longo do ano não se encontrou consigo próprio nem com os limites, duros, que este desporto impõe.

Acumulou, como abaixo se constata, acidentes sobre acidentes.

Mostrou uma imagem pouco condizente com o seu potencial, e não deu o passo em frente em que muitos, nós próprios também, acreditavam.

Mais: piorou o seu desempenho e resultados na comparação com a época anterior.

Se em 2013 triunfou no WRC2, e ao volante de um RRC conseguiu ser o décimo terceiro classificado à geral no final do campeonato com dezoito pontos somados, tendo, note-se, participado apenas em oito dos treze eventos do ano, já na temporada há pouco concluída, aos comandos de um carro full WRC preparado por uma estrutura insuspeita como a M-Sport, participando na totalidade dos mesmos treze Ralis que preenchiam a época, fez menos pontos (catorze) ficou pior classificado na tabela (décimo sexto lugar final) reservada a pilotos, foi com clareza o mais desacertado e irregular dos concorrentes que competiram aos comandos de World Rally Cars, e inclusive viu-se pontualmente ultrapassado por uma miríade de adversários (Tanak, Paddon, Hanninen, Bouffier, Henning, Sordo e Prokop) que apenas cumpriram programas parciais no campeonato.

Trocando por miúdos; a época de Robert foi, literalmente, um desastre.

Na hipótese de continuar no mundial de Ralis em 2015, é grande o desafio que impende sobre os ombros do antigo piloto de F1.

A consistência será, neste contexto, a palavra-passe capaz de projetar o polaco para novos patamares de competitividade.

Não obstante os elevados índices de popularidade que nutre nos quatro cantos do planeta, sem afastar sequer nesta análise a forma autêntica como Kubica comunica expressando o que lhe vai na alma, no oposto das frases de conveniência que caracterizam o automobilismo em geral, nem esquecendo a aura de lutador que, com justiça, lhe é atribuída, parece-nos que a margem de erro na eventualidade de conseguir viabilizar um projeto para permanecer nos Ralis, é hoje especialmente diminuta.

É que nisto de acidentes não é McRae quem quer, é McRae quem pode…         


 2  0  1  3 

 INGLATERRA 



 2  0  1  4 

 MONTE CARLO 

 SUÉCIA 



 MÉXICO 

 PORTUGAL 

 SARDENHA 


 POLÓNIA 


 FINLÂNDIA 


ALEMANHA




AUSTRÁLIA


 FRANÇA 


 ESPANHA 



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