terça-feira, 24 de setembro de 2013

P.E.C. Nº 224: One, two, three (FORD...), Hey Ho! Let´s Go!...


Não fizemos a inventariação com rigor, mas a nossa perceção é que na segunda metade dos anos setenta e primeiros anos da década seguinte, à exceção, porventura, dos pilotos sob contrato com as equipas oficiais da Lancia e Fiat, poucos devem ter sido os grandes nomes dos Ralis a não ter experimentado, pelo menos uma vez na carreira, os Ford Escort de segunda geração.

De todos os que guiaram o icónico tração traseira da marca americana (foram muitos por esse mundo fora) acreditamos nenhum o terá feito com a mestria de Ari Vatanen.

Um pouco, se quisermos, como a emblemática guitarra Fender Stratocaster, que tendo sido seguramente já explorada por todos os mais brilhantes guitarristas do planeta, ainda assim nunca terá sido levada ao limite como pela arte de Hendrix.

Entrando em termos de comparação entre rock e Ralis, metaforicamente pode-se escrever que Vatanen trouxe à modalidade que o notabilizou uma certa atitude punk.

Subjaz das imagens dos Ford Escort que tripulou na fase inicial da carreira uma enorme rebeldia e insubmissão a regras pré-instituídas.

Os cânones da condução politicamente correta encontraram no finlandês um insubmisso férreo, tamanha a irreverência que colocou ao volante dos RS 1800 entre 1977 (o ano em que o punk explode em terras de sua majestade coincide com a entrada de Ari no mundial de Ralis com caráter regular) e 1981 (quando se colocou, provocatório, no lugar mais alto da ‘tabela de vendas’ pontual no final dessa temporada).


Os míticos três acordes a ser rasgados furiosamente, tocou-os Ari em três… pedais com batidas igualmente frenéticas!

Os Ford do nórdico naqueles anos semearam ilusões como nenhuns outros, parecendo praticar um convicto e constante slam dancing às bermas do troço.

O paradoxo entre a calma e o sorriso franco de Ari fora do carro e a libertinagem, urgência e inquietude dentro dele, provam que o finlandês transformava-se em palco.

Naturalmente uma ‘atitude Clash’ redundou diversas vezes em ‘resultados Crash’.

A par dos mais belos slides, o percurso desportivo de Vatanen está repleto de chapa retorcida e aparatosos acidentes.

Mas é essa voragem pelo excesso e a recusa em encarar a racionalidade que guindaram o campeão do mundo de Ralis de 1981, tal como aliás ao seu compatriota e adversário Henri Toivonen e posteriormente a Colin McRae, a um estatuto muito especial, feito de coragem e de tenacidade, vivendo depressa e na permanente provocação dos limites.

Como o Strummer ou o Joey Ramone…








AS FOTOS PUBLICADAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2220.htm- http://www.forum-auto.com/sport-auto/histoire-du-sport-auto/sujet369276-2765.htm

sábado, 21 de setembro de 2013

P.E.C. Nº 223: A Senhora da Hora... dos Ralis!


Escrevemos recentemente neste blogue meia-dúzia de frases alusivas à ligação entre o Porto e o Rali de Portugal (ver aqui)

Porém, à semelhança de Lisboa e da vizinha do lado Sintra, também a norte do país Matosinhos teve no passado uma relevância decisiva no contexto da prova, capaz até, dentro da subjetividade que estas matérias sempre encerram, superar o legado que a cidade Invicta deixou no historial do evento.

O maior parque de exposições do país (Exponor) foi durante algumas edições a barriga de aluguer (leia-se centro nevrálgico) do Rali.

Dali se iniciaram e concluíram os processos de gestação de algumas das mais entusiasmantes edições do Rali, como será o caso de 1998 (ver aqui), quando McRae e Sainz se envolveram num duelo sem tréguas na procura da vitória, concluindo as hostilidades separados por míseros 2,1 segundos. 

Mas Matosinhos não se confinou, nesses anos, a manter a caravana no conforto dos gabinetes da Exponor. 

Há 15 anos, por exemplo, ‘obrigou’ os concorrentes a uma arruada pelas principais avenidas da cidade, com passagem pelo palanque para a merecida ovação perante aficionados e menos aficionados (mas ainda assim rendidos ao charme irresistível da prova) destas coisas dos carros. 

É desse momento, da cerimónia do pódio alusiva à 32.ª edição do Rali de Portugal realizada em plena Avenida Dom Afonso Henriques, Matosinhos, que cuida a foto que abre este trabalho. 

No momento da consagração Sainz e Moya, resignados ao lugar intermédio do pódio, não desconfiavam que o pior viria meses mais tarde, quando dramaticamente viram (literalmente) esfumar-se a pouco mais de 500 metros do final do campeonato um título que estava mais que garantido. 

Um dia, a esse fatalismo que só os desígnios do destino poderão ajudar a compreender, talvez venhamos a dedicar algumas linhas. 

Para já, numa das mais épicas edições do Rali de Portugal de que há memória, o que nos apraz dizer é que naquela quinta-feira, dia 25 de março de 1998, o triunfo de McRae foi de tal forma apertado, que se a Senhora da Hora tivesse feito uma aparição à multidão presente na Afonso Henriques viria certamente trajada de kilt e a soprar fervorosamente uma gaita-de-foles.


Nota 1:
Para entrarmos ao ataque neste trabalho foi indispensável o reconhecimento prévio do terreno minuciosamente levado a cabo pelo nosso batedor (de fotos...) Mário Conceição. A ele novamente endereçamos o nosso mais sincero agradecimento pela fotografia atual da Avenida Dom Afonso Henriques, em pleno coração de Matosinhos. Uma quinzena de anos separa as duas imagens publicadas neste trabalho. Aparentemente pouco mudou naquela artéria. Como se Matosinhos sinalizasse a quem de direito a mesmíssima predisposição para acolher a caravana do Rali de Portugal que evidenciava em 1998.

Nota 2:
Desde a abertura deste blogue, no final de maio de 2010, temos vindo a identificar sempre os sites onde colhemos a fotografias que publicamos nos nossos trabalhos. É um imperativo ético de que não abdicamos. Infelizmente, por motivos que nos escapam, não nos é para já possível indicar o link onde obtivemos a foto que encima esta 'P.E.C.'. Logo que se mostre possível, de imediato procederemos à correção de tal lapso.

sábado, 14 de setembro de 2013

P.E.C. Nº 222: Pelos 'caminhos' de Portugal!


Em tertúlias relativas aos Ralis ou em fóruns de debate sobre a modalidade, é recorrente vir à liça a discussão sobre classificativas. 

Sobre o assunto esgrimem-se, então, preferências. 

Terçam-se animadamente argumentos sobre trajetos, sinuosidade, piso, ou espetacularidade do ponto de vista visual. 

Portugal, aliás, fornece nesta área abundante matéria-prima para contraditar. 

Em matéria de Ralis não é despiciendo afirmar que Portugal é um país-classificativa

Do extremo-norte (Minho) ou extremo-sul (Algarve) do território continental, sem esquecer nunca o asfalto da Madeira ou as especiais de terra açorianas, quanto a troços temos por cá de tudo um pouco, para os mais variados gostos e feitios. 

A perceção do adepto sobre o assunto é por vezes traída pela realidade. 

As características de uma classificativa devem ser olhadas pela globalidade do percurso, não apenas por um determinado ponto/local em que os concorrentes passam por uns breves segundos. 

A espetacularidade da Lameirinha não se esgota no Confurco ou no Salto da Pedra Sentada

A lenda de Arganil alimenta-se de muitos outros pontos além da Casa do PPD, do cruzamento em Folques, ou de Selada das Eiras

As dificuldades das especiais madeirenses não acabam com a passagem pelas zonas do Paul da Serra e/ou Chão da Lagoa

E os Açores têm mais bilhetes-postais para oferecer aos aficionados que os colhidos na especial das Sete Cidades, quando os carros parecem fazer um jogo de equilibrismo lá no alto como se levitassem sobre as águas esverdeadas da Lagoa. 

A ideia de diversidade de troços nos Ralis acaba por fomentar alguma da dialética sobre este desporto. 

Daí que entre adeptos haja naturalmente uma multiplicidade de opiniões, quase sempre inconclusivas em torno daquilo que pode ser considerado, afinal, um ‘bom troço’, ou se quisermos, redundantes na tentativa de se definir qual a ‘melhor classificativa’

Nesta matéria, pensamos que não há nada como colher impressões diretamente junto de quem conhece a fundo (literalmente) as especiais portuguesas. 

Animados por esse propósito, via Facebook colocámos duas simples questões a diversos pilotos portugueses de diferentes gerações. 

Agradecemos, naturalmente, aos que tiveram a amabilidade de responder ao nosso repto. 

E se alguém esperava nesta matéria uma uma certa uniformização de opiniões, os depoimentos que seguem não só contrariam essa lógica como reforçam a ideia de que também entre os pilotos as preferências são as mais diversas, não obstante algumas curiosas citações em comum.

ZONA-ESPECTÁCULO – (perguntas):

1 - Do ponto de vista da pilotagem, qual a classificativa de terra e de asfalto (indicar de preferência no máximo duas em cada tipo de piso) que mais gosta em Portugal, e porquê (os motivos podem ser apresentados de forma mais elaborada ou mais sucinta, consoante preferir)?

2 - Num apelo às suas memórias, pedimos que identifique qual foi ao longo da sua carreira o troço (indicando Rali e ano) que completou, sentindo após a tomada de tempos ter estado mais perto dos limites do carro e de si próprio, com aquela sensação, digamos, de transcendência, ou de que era virtualmente impossível ter andado mais depressa.

JOSÉ PEDRO FONTES:

1- “Olá. Os meus troços preferidos são: em terra o torço da Lomba da Maia, nos Açores, e em asfalto os troços da mata de São Pedro de Moel. Característica que aprecio nos dois: a rapidez e o desenho da estrada.

2 - Quanto a troços que me recordo pelos riscos que tomei, o último troço do Rali do Nordeste de 2005 (Clio S1600), e o penúltimo troço da mata de São Pedro de Moel do último dia do Rali Centro de Portugal de 2010 com o Porsche. É sempre possível andar mais depressa, mas nesses arrisquei aquilo que poucas vezes fiz.”


MIGUEL CAMPOS:

1 - “As classificativas em terra que mais gozo me deu fazer foram as dos Açores, por serem rápidas e com um piso muito deslizante. Em asfalto, posso dizer que gosto muito da especial de Vilar de Mouros do antigo Rali Sopete: é uma especial com muito ritmo, muito técnica e… cheia de público.

2 - A última especial do Rali Vinho da Madeira de 2003, quando ganhei o Rali por 5 segundos ao Bruno Thiry. Foi uma especial já fora de todos os limites, mas compensou o esforço.”


JOSÉ MIGUEL LEITE FARIA:

“Obrigado por ainda se lembrarem de mim depois de tantos anos. Relativamente às questões que me põem, vou tentar responder sucintamente.

1 - Classificativas de asfalto: Vilar de Mouros e o trio Lagoa Azul, Peninha e Sintra (estas especialmente à noite, de preferência com chuva e nevoeiro). Classificativas de terra: Remédios/Portões Vermelhos e a Tronqueira, no Rali dos Açores.

2 - Troço mais conseguido, talvez Vilar de Mouros, segunda passagem, no Sopete de 1993.”


CARLOS MARTINS:

“A minha experiência é pouca, se considerarmos que este é o meu primeiro ano a tempo inteiro a disputar campeonatos.

1 - Em asfalto, gostei muito dos troços de Monção de 2012, técnicos, com muitas travagens em apoio de curva, com velocidades não muito elevadas, nomeadamente Merufe! Em terra, gostei muito dos troços da Lameirinha e Ruivães. Têm algo de especial, mas a verdade é que os melhores troços de terra que conheço estão no sul. Existe um troço que espero que um dia receba um Rali, pois é algo de espetacular! Esse é o meu preferido: Corte Pinto. Tem tudo o que se espera de um troço do ponto de vista de condução!

2 - Sinto que nunca me superei num troço. Tenho sempre a sensação de que estou a controlar e que podia ter ido um pouco mais longe. Mas a verdade é que este ano no Open todos os troços foram novos para mim, e isso também não ajuda a obter essas sensações de andar nos limites. Gostei especial de Beja deste ano, onde andei sempre muito próximo do Ricardo Teodósio. Muito bom!”


ARMINDO NEVES:

“Obrigado pelo vosso interesse.

1 - Em relação à 1.ª pergunta, nas classificativas de terra terei de eleger Fafe/Lameirinha, pela sua espetacularidade, gozo de condução, e ainda por todo o misticismo que representa, e a classificativa de Ourique, versão 2007 do Rali de Portugal, pois é também uma classificativa espetacular, onde se atingem grandes velocidades e com momentos de condução verdadeiramente… espetaculares. Em relação à classificativa em asfalto irei eleger sem nenhuma sombra de dúvida o troço da Mata de São Pedro de Moel, do Rali Vidreiro, versão 2011, disputado à noite. Sem palavras mesmo. Só estando dentro do carro conseguimos descrever o que é percorrer esta classificativa à noite e ao ataque. É algo simplesmente de cortar a respiração.

2 - Relativamente à 2.ª questão e tirando os anos de troféu C2, em que o ritmo era elevadíssimo e onde a nossa evolução foi enorme exatamente por isso mesmo, possivelmente a classificativa onde andei mais rápido e arrisquei um pouco mais sem pensar na mecânica do carro foi no último troço do Rali de Oliveira do Hospital de 2011, onde estávamos a disputar a vitória à geral com o Luís Mota. Andámos literalmente “por cima de toda a folha”, como se costuma dizer, e ganhámos o troço à geral embora só tivéssemos conseguido recuperar um segundo para o Luís, que acabou por nos ganhar o Rali apenas por 0,5 segundos. Acabámos por não vencer à geral, mas ficámos de consciência tranquila pois temos a noção que demos tudo o que era possível. Normalmente reservo sempre alguma margem de segurança e raramente ando para lá dos limites desde que faço Ralis, pois fi-lo amiúde nos anos em que corri de moto. Nos automóveis, devido aos elevados custos que envolvem este desporto, entendo que para podermos fazer as épocas dentro dos orçamentos disponíveis há que ter alguma cabeça fria e nunca sacrificar uma época apenas por uma corrida ou um troço. Mas neste caso, foi mesmo das poucas vezes em que não pensei nisso e dei o máximo que tinha sem me preocupar com mais nada.
Resta agradecer-vos uma vez mais e colocar-me à disposição sempre que seja necessário mais alguma coisa. Um abraço."


ADRUZILO LOPES:

1 - “Classificativa de terra: Sete Cidades (Açores), pela rapidez e espetacularidade. Classificativa de asfalto: Arga (em Ponte de Lima), também pela rapidez e espetacularidade.

2 - Lousã (terra) em 1992 (no Rali Figueira da Foz, nota nossa), com o Citroen AX, onde em duas passagens fiz dois segundos lugares à geral.”

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Embalados pela resposta anterior, e pela surpresa da eleição de Adruzilo relativamente ao seu 'melhor troço de sempre', com um carro de reduzida potência e numa altura em que a sua carreira ainda dava os primeiros passos (logo ele que tem uma longa percurso desportivo ao volante de carros de sonho, e participou em batalhas intensas nestes quase trinta anos de Ralis), movidos por enorme curiosidade procurámos aprofundar pormenores sobre esse momento. 

O interlocutor lógico não poderia deixar de ser… quem nessas descidas Lousã abaixo se sentou no lado direito do pequeno AX: António Abreu.

O antigo navegador, também via Facebook muito gentilmente confirmou-nos que o andamento nesses dois troços foi de facto transcendente, guardando aliás gratas recordações dessa época em que muitas vezes a dupla do Citroen realizou cronos capazes de fazer corar de vergonha alguma concorrência equipada com carros de bem maior gabarito. 

Num apelo às memórias e durante a conversa interessantíssima sobre Ralis que mantivemos com ele, António Abreu precisou, então, com mais nitidez as circunstâncias dessas duas especiais da Lousã, designadamente na longa e conhecida descida em terra que leva os concorrentes desde as aldeias serranas até às imediações daquela vila do centro do país. 

O episódio é, aliás, daqueles que pela sua singularidade e arrebatamento são capazes de fazer elevar a realidade para o patamar de um culto

Abreu confidenciou-nos então:

Eu dizia: trava para esquerda rápida menos, e sabe o que é que fazia? Metia outra para cima!”

Não travava?”, questionámos embasbacados e quase incrédulos (nota: conhecemos relativamente bem aquele trajeto)

Não!”, respondeu perentório Abreu (nota: afinal conhecemos relativamente mal aquele trajeto)...

A troca de impressões terminou logo aí, sem palavras adicionais.

António Abreu, no conforto do seu lar, talvez tenha prazenteiramente continuado a desafiar as suas vastas memórias.

Nós, por seu turno, do lado de cá 'metemos uma acima' rendidos a mais um daqueles segredos de ouro que esta modalidade sabe cultivar como nenhuma outra.



AS FOTOS PUBLICADAS NESTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://autosport.pt/museu-internacional-do-rali-em-arganil=f108795
- http://mscfotorali.blogspot.pt/2012/08/retrospectiva-2012-wrc-fafe-rally-sprint.html

sábado, 7 de setembro de 2013

P.E.C. Nº 221: O Rali de Portugal 'Invictamente falando'...



I)

Durante semanas e até há relativamente pouco tempo, o país automobilístico andou exacerbadamente entretido a discutir a melhor localização para o Rali de Portugal a partir de 2014. 

Ouviu-se e leu-se um pouco de tudo. 

Discussões acaloradas à procura da quadratura do círculo sobre o tema. 

Algum péssimo jornalismo, dando como adquirido aquilo que o tempo se encarregaria de contrariar. 

Personalidades diversas a colocar-se em bicos dos pés, alimentando polémicas apenas para garantir projeção mediática. 

Aproveitamento político de um evento que, pela sua história e legado, devia passar ao lado de querelas eleitorais. 

Ouviu-se e leu-se, em suma, muita informação, bastante contrainformação, e sobretudo ... desinformação

O rescaldo desta primavera-quente estará ainda por apurar nos seus precisos contornos.
 
Não nos parece, porém, que os principais atores deste folhetim tenham saído dele especialmente engrandecidos. 

E acima de tudo é de admitir que o prestígio da prova possa ter sido no plano internacional, ainda que ao de leve, algo beliscado. 

Como já referimos anteriormente, a nossa posição de princípio neste assunto é clara: é-nos absolutamente indiferente se o Rali de Portugal se disputa no Minho ou no Algarve

Fulcral é que o nosso país a cada ano integre o conjunto de Ralis que compõem o calendário do campeonato do mundo

Uma das ideias (porventura, das que vieram a terreiro, aquela que teria mais pernas para andar) lançadas para a opinião pública após o WRC Fafe Rally Sprint/2013 (disputado a 6 de abril), passou pela cidade do Porto assumir-se como o centro nevrálgico da prova a partir do próximo ano

Houve quem aventasse desde logo a possibilidade do Parque da Cidade assumir-se como a zona de assistência do Rali, no local que hoje funciona como Paddock do Circuito da Boavista. 

Mentes mais imaginativas alvitraram até a hipótese de uma super-especial a disputar no coração da Cidade Invicta, desenhada na Avenida dos Aliados e artérias limítrofes. 

São ideias que estarão para já suspensas, até ao momento em que eventualmente o Rali de Portugal retorne ao centro e norte do país. 

Não será, já o sabemos, em 2014. 

Veremos se tal migração será viável em anos seguintes. 

Por sinal, o Porto até tem raízes importantes no contexto do evento, que vão muito além da demonstração realizada pelos melhores carros e pilotos do mundo no WRC Porto Rally Show/2010

Logo nos primórdios, ainda nos anos sessenta, a competição passou pelo (hoje inexistente) Estádio do Lima, no anel de velocidade que aquela infraestrutura possuía. 

Depois, como a foto que abre o presente trabalho documenta, foi a incontornável Avenida dos Aliados (elo de ligação entre passado, presente e futuro?) a servir de cicerone aos concorrentes do Rali. 

Como podemos comparar através das duas imagens colocadas neste trabalho, o presente tem sabido compreender e respeitar o passado, mantendo a sala de visitas da Cidade Invicta todo o classicismo aristocrático que lhe conhecemos. 

As diferenças em 41 anos são quase inexistentes. 

Quase como se os Aliados sinalizem hoje a mesma predisposição e entusiasmo para acolher os concorrentes do Rali que demonstravam em 1971.

II)

Durante anos, um país órfão de informação e com poucos contactos com o exterior assistia deslumbrado à exibição de carros de sonho, ruidosos, conduzidos com inegável mestria e espetacularidade.

Os estrangeiros vinham a Portugal com os seus potentes automóveis, para em meia-dúzia de dias estabelecer um manifesto jogo de contrastes com a rudimentar motoreta do Manel, ou a carroça indolentemente conduzida pela Maria

O povo rendia-se ao Rali de Portugal elevando-o ao estatuto de verdadeira celebração

Por uns dias, automóveis de competição traziam cor e movimento a um país cinzento e algo entorpecido. 

Em outubro de 1971, o elã sedutor do Rali de Portugal assentou por algumas horas arraiais nos Aliados, Porto. 

Perante uma multidão ao rubro, os estrangeiros foram fazendo poderosas demonstrações de perícia pelo piso empedrado daquela artéria. 

No conjunto de tais estrangeiros constava o nome de um jovem francês desconhecido do grande público, baixote e pouco falador, com um aspeto, digamos, algo atarracado (portuguesmente atarracado…) que seguramente não o faria destacar-se no meio da multidão.

Além do mais, não era um dos ases do volante em quem as atenções (então, e agora) recaem quase em exclusivo. 

Em 1971, com 25 anos, Jean Todt era um discreto mas competente navegador de Ralis. 

Nos Aliados ou noutro qualquer local onde as grandes provas internacionais da modalidade se disputavam, fazia da palavra a sua ferramenta de trabalho. 

Os tempos mudaram. 

O francês fez e foi muita coisa na vida. 

Mas um hipotético regresso do Rali de Portugal à cidade do Porto e em concreto à Avenida dos Aliados, não ocorrerá seguramente sem o atual Presidente da FIA ter uma (decisiva) palavra a dizer para o efeito.


Nota:
Zona-Espectáculo não pode concluir o presente trabalho sem agradecer publicamente ao nosso amigo Mário Conceição a foto atual da Avenida dos Aliados, decisiva para publicar mais este nosso exercício de 'antes & depois' que tanto (inexplicável) gozo pessoal nos dá. Para o Mário, um grande abraço de agradecimento e amizade.

A FOTO QUE ABRE O PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
http://images.forum-auto.com/mesimages/273759/1.jpg4..jpg

terça-feira, 3 de setembro de 2013

P.E.C. Nº 220: Freita


"... chegámos ao troço da Freita (no Rali de Portugal de 1990, nota nossa), perto das duas horas da madrugada e estava a nevar! Na assistência, disseram-nos que não vinham preparados para aquelas condições e, por isso, iriam montar pneus intermédios no Delta, como haviam feito nos carros oficiais. Pediram-nos para nos safarmos o melhor possível! Quando chegámos ao troço, a neve era tanta, que mais parecia uma Classificativa do Monte Carlo. Nós éramos os primeiros não oficiais e, quando partimos, chegámos à conclusão que os pilotos de fábrica, que haviam partido antes de nós, haviam adotado um estilo de condução como se estivessem algures na Suécia. Só que ali, na Freita, os montes de neve eram substituídos por muros e, em resultado disso, nos quilómetros iniciais, só víamos montes de peças no meio da estrada. Foi um suplício conduzir naquelas condições, mas conseguimos chegar ao fim, sem grandes mazelas."


CARLOS BICA em entrevista a Nuno Branco
Revista AutoSport n.º 1.859, de 14-08-2013 


Não é fácil escrever sobre a classificativa da Freita

Fica-nos a ideia, das pesquisas que realizámos para a elaboração do presente trabalho, que em certo sentido se trata de uma classificativa-mistério

Durante o período em que esteve integrada no Rali de Portugal foi sempre disputada de noite

Como se por convicção e princípios envergasse uma burca negra a esconder-lhe quase por completo a morfologia. 

Da Freita, além de elementos estatísticos (que mais abaixo não deixamos de transcrever também) pouco há escrito. 

Imagens rareiam, e as que existem praticamente nada revelam relativamente aos segredos do trajeto. 

No entanto, ainda que de forma um tanto ou quanto intermitente, durante vinte anos (1973/1993) a estrada que liga a aldeia de Manhouce (concelho de São Pedro do Sul) a Porto Escuro nas imediações da vila de Arouca, foi comparsa fiel de concorrentes e público seguidor do Rali de Portugal. 

Alguma da lenda desta classificativa assenta muito nos desafios que o seu percurso oferecia aos pilotos. 

Por se disputar de noite, como escrevemos. 

Por invariavelmente se disputar quando homens e máquinas haviam já calcorreado no respetivo dia de prova muitos quilómetros em troço e ligação, acumulando fadiga e por arrasto menos concentração. 

E por ter um percurso, como recentemente tivemos oportunidade de radiografar, repleto de pequenas ratoeiras a fazer pagar caro a mais pequena distração. 

Que o diga, entre outros, Armin Schwarz

O alemão, piloto oficial Toyota, em 1990 e 1991 era líder da prova e não conseguiu passar incólume às dificuldades da classificativa, em ambas ocasiões incorrendo em saídas de estrada que o impediram de prosseguir o Rali. 

O troço da Freita é, olhado sob o prisma da condução, verdadeiramente extraordinário

Possui curvas para todos os gostos e feitios. 

Tem uma longa subida inicial, verdadeiramente empenhativa, a que segue uma zona de planalto nos cumes da Serra (uma vista extraordinária, da área do Grande Porto até à Figueira da Foz, sem esquecer o alcance visual de montes e vales a perder de vista pelo interior do país), para tudo acabar numa descida de meia-dúzia de quilómetros extremamente exigente, estreita, repleta de travagens fortes, em tudo idêntica ao que de melhor nesta matéria (asfalto, descendo a bom descer…) a Serra da Lousã propôs a concorrentes durante anos a fio. 

Para quem extrair prazer em dominar um carro em curva em ritmo vivo, seja uma viatura de uso quotidiano ou um bólide de competição, a Freita é a estrada certa. 

Não conseguimos identificar que parte daqueles quase vinte e cinco quilómetros é mais entusiasmante. 

Tudo é de tal forma sublime que fazer escolhas seria um dilema mais ou menos idêntico em optar pela vitela de Lafões que povoa a zona do seu início, ou uma suculenta posta à arouquesa que se pode encontrar nas imediações do seu final. 

Bom apetite…


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Nota:
- Zona-Espectáculo, à semelhança de ocasiões anteriores, agradece publicamente ao David Matos a colaboração decisiva na recolha das imagens que mais abaixo se publicam.

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ANO1973.
DATA16 de março.
DESIGNAÇÃOFreita '1'.
EXTENSÃO25,00 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE21h:15m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Bernard Darniche.
b) Navegador(es)Alain Mahe.
c) Carro(s)Renault Alpine A110 1800.
MELHOR TEMPO REALIZADO19m:23s.
MÉDIA HORÁRIA77,39 kms/h.
 

ANO1973.
DATA18 de março.
DESIGNAÇÃOFreita '2'.
EXTENSÃO16,00 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE0h:10m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Jean-Luc Thérier.
b) Navegador(es)Jacques Jaubert..
c) Carro(s)Renault Alpine A110 1800.
MELHOR TEMPO REALIZADO17m:09s.
MÉDIA HORÁRIA55,98 kms/h.


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ANO1974.
DATA23 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO20,50 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE0h:46m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Markku Alén.
b) Navegador(es)Ilkka Kivimaki.
c) Carro(s)Fiat 124 abarth Spider.
MELHOR TEMPO REALIZADO20m:43s.
MÉDIA HORÁRIA59,37 kms/h.


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ANO1975.
DATA19 de julho.
DESIGNAÇÃOFreita '1'.
EXTENSÃO24,50 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE4h:14m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Achim Warmbold.
b) Navegador(es)John Davenport.
c) Carro(s)BMW 2002.
MELHOR TEMPO REALIZADO20m:18s.
MÉDIA HORÁRIA72,41 kms/h.


ANO1975.

DATA19 de julho.
DESIGNAÇÃOFreita '2'.
EXTENSÃO24,50 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE23h:53m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Markku Alén.
b) Navegador(es)Ilka Kivimaki.
c) Carro(s)Fiat 124 Abarth Spider.
MELHOR TEMPO REALIZADO19m:52s.
MÉDIA HORÁRIA73,99 kms/h.

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ANO1978.
DATA20 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,50 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE4h:30m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Bjorn Waldegaard.
b) Navegador(es)Hans Thorszelius.
c) Carro(s)Ford Escort RS.
MELHOR TEMPO REALIZADO20m:38s.
MÉDIA HORÁRIA71,24 kms/h.

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ANO1979.
DATA8 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,50 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE5h:05m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Bjorn Waldegaard.
b) Navegador(es)Hans Thorszelius.
c) Carro(s)Ford Escort RS 1800.
MELHOR TEMPO REALIZADO18m:48s.
MÉDIA HORÁRIA78,19 kms/h.

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ANO1980.
DATA6 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,50 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE4h:49m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Markku Alén.
b) Navegador(es)Ilkka Kivimaki.
c) Carro(s)Fiat 131 Abarth.
MELHOR TEMPO REALIZADO19m:20s.
MÉDIA HORÁRIA76,03 kms/h.

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ANO1981.
DATA5 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,50 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE5h:20m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Ari Vatanen.
b) Navegador(es)David Richards.
c) Carro(s)Ford Escort RS.
MELHOR TEMPO REALIZADO19m:35s.
MÉDIA HORÁRIA75,06 kms/h.

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ANO1982.
DATA4 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,47 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE21h:50m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Michèle Mouton.
b) Navegador(es)Fabrizia Pons.
c) Carro(s)Audi Quattro.
MELHOR TEMPO REALIZADO18m:36s.
MÉDIA HORÁRIA78,94 kms/h.

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ANO1987.
DATA11 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,20 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE23h:09m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Massimo Biasion.
b) Navegador(es)Tiziano Siviero.
c) Carro(s)Lancia Delta HF 4WD.
MELHOR TEMPO REALIZADO16m:38s.
MÉDIA HORÁRIA87,29 kms/h.

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ANO1988.
DATA2 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,30 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE20h:52m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Massimo Biasion.
b) Navegador(es)Carlo Cassina.
c) Carro(s)Lancia Delta Integrale.
MELHOR TEMPO REALIZADO15m:56s.
MÉDIA HORÁRIA91,51 kms/h.

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ANO1989.
DATA1 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,20 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE22h:09m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Massimo Biasion.
b) Navegador(es)Tiziano Siviero.
c) Carro(s)Lancia Delta Integrale.
MELHOR TEMPO REALIZADO18m:02s.
MÉDIA HORÁRIA80,52 kms/h.

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ANO1990.
DATA7 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,35 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE22h:35m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Kenneth Eriksson.
b) Navegador(es)Staffan Parmander.
c) Carro(s)Mitsubishi Galant VR-4.
MELHOR TEMPO REALIZADO16m:41s.
MÉDIA HORÁRIA87,57 kms/h.

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ANO1991.
DATA6 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,20 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE22h:13m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Massimo Biasion.
b) Navegador(es)Tiziano Siviero.
c) Carro(s)Lancia Delta HF Integrale 16v.
MELHOR TEMPO REALIZADO18m:36s.
MÉDIA HORÁRIA78,06 kms/h.

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ANO1992.
DATA4 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,10 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE22h:13m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)Juha Kankkunen.
b) Navegador(es)Juha Piironen.
c) Carro(s)Lancia Delta HF Integrale.
MELHOR TEMPO REALIZADO14m:38s.
MÉDIA HORÁRIA98,82 kms/h.

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ANO1993.
DATA3 de março.
DESIGNAÇÃOFreita.
EXTENSÃO24,10 quilómetros.
HORÁRIO DE PARTIDA DO PRIMEIRO CONCORRENTE21h:48m.
VENCEDORES:
a) Piloto(s)François Delecour + Andrea Aghini.
b) Navegador(es)Daniel Grataloup + Sauro Farnocchia.
c) Carro(s)Ford Escort RS Cosworth + Lancia Delta HF Integrale.
MELHOR TEMPO REALIZADO14m:22s.
MÉDIA HORÁRIA100,65 kms/h.

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