sábado, 17 de setembro de 2011

P.E.C. Nº 100: Como conduzir um carro de Ralis? Colin explica!



Há pilotos que não gostam de desvendar o que ocorre dentro do seu carro de Ralis.

A vida a bordo processa-se, para eles, segundo uma lógica de estore e persiana fechada.

Revelar qualquer pequeno truque de condução que lhes dê vantagem competitiva é devassar a sua 'vida privada'.

Gostam de se fechar na sua redoma de chapa e aço.

Fazem, aliás, gala disso.

Os pequenos prazeres secretos de que é feita a sua condução não são divulgáveis nem expostos ao escrutínio público.

Como em todos os aspetos da vida, há, claro, o reverso da medalha: pilotos que parecem ter satisfação em franquear o acesso ao interior dos seus carros, sem regras nem limitações.

Colin McRae, parece-nos, fazia parte deste segundo grupo.



As inúmeras imagens que existem dentro dos carros que conduziu reforçam a ideia que nunca teve nada a esconder.

A sua pilotagem, singular, não tinha corantes nem conservantes.

Era puro sumo de destreza natural.

Condução gourmet.

O saudoso escocês tinha provavelmente a noção que a forma como guiava os seus carros não era passível de imitação.

Ainda que alguém, num arremedo de coragem, se aventurasse a guiar ‘à Colin, nunca seria tão veloz nem espetacular como Colin.

Porquê? Porque faltaria sempre a peça chave: Colin.

Porque só Colin, na sua genuinidade [e a espaços, ingenuidade], conduzia daquela maneira.



As imagens que seguem mostram o lendário escocês a partilhar saberes e competências.

McRae não guardava o conhecimento enciclopédico de conduzir apenas para si.

Partilhava-o de forma espontânea.

Sobretudo, porque o saudoso britânico fazia parte daquela geração formidável que queria ganhar com concorrência forte.

Ele precisava de adversários à altura.

Quanto mais rápidos fossem, mais Colin tinha necessidade de se superar.

E como ele apreciava isso: pilotar sem meios-termos nem meias-tintas!

Como se a vida real fosse o jogo a que deu nome e o ajudou a popularizar...



AS FOTOS PUBLICADAS NO PRESENTE TRABALHO FORAM OBTIDAS EM:
- http://image.importtuner.com/f/editorials/colin-mcrae-and-son-tragic-helicopter-crash/7161502+w640+cr1+re0+ar1/colin-mcrae-1968-2007.jpg
- http://forum.vidaplaystation.com.br/showthread.php?tid=590
- http://www.place77.com/colin-mcrae-rally-728.html

P.E.C. Nº 99: O pior 'inimigo' do piloto e navegador...



Como o mar sem ondas para os surfistas, ou o vento para quem compete em ciclismo, também os Ralis podem sofrer as agruras do mau-humor da natureza.

Para piloto e navegador dificilmente haverá cenário mais problemático que o espetro do nevoeiro em plena classificativa.

Não há, contra ele, nenhum antídoto verdadeiramente eficaz.

Quando surge, inexorável, é a altura da pilotagem, tal como a conhecemos, dar lugar a uma experiência de contornos algo extrassensoriais.

A dialética entre pedais e volante é, nesse momento, preterida em detrimento da intuição.

Os sentidos da dupla de pilotos tornam-se, por força das circunstâncias, especialmente aguçados.

A noção de tempo de travagem e aceleração fica desconexa.

Simplesmente não se a estrada.

Pior: não se a estrada.

Os Ralis têm fornecido episódios interessantes em torno do tema.

O mais emblemático será talvez a eterna madrugada de Março em 1980, quando Rohrl e Geistdorfer, nas florestais de Arganil, fizeram história guindando a condução em nevoeiro a uma dimensão quase bíblica [vd. n/ P.E.C. Nº 74].

Ver um carro de Ralis emergir por entre um manto espesso de nevoeiro tem muito de sebastiânico.

Traduz o misticismo no qual esta modalidade sempre encontrou sólidos pontos de ancoragem.

A condução contra o cronómetro num cenário de nevoeiro é como jogar à cabra-cega sobre patins.

Com um raio de visão ténue, ou até mesmo quase nulo, ultrapassar os limites da estrada passa a estar nos domínios do acaso.

É aqui que os Ralis entram numa outra dimensão.

Terminar uma classificativa de dezenas de quilómetros neste enquadramento de tamanhas dificuldades, só se explica se afinal existir secretamente uma espécie de linguagem em braille para pilotagem.

PEDRO MATOS CHAVES/SÉRGIO PAIVA, Renault Clio S1600, 'Rali Iduna Dão-Lafões/2004':
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A FOTOGRAFIA PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://formularali.mundopt.com/ralis/internacional-ralis/irc/galeria-sete-cidades-paulo-rui-viveiros/

O EXCERTO DE IMAGENS QUE PUBLICAMOS NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDO EM:
- http://www.youtube.com/watch?v=UTV0pQNWXc8

P.E.C. Nº 98: Definir Ralis pela pena de um dos seus primeiros Mestres!...



1 - “Os ralis são arte, paixão e emoção. É como ouvir uma música com boa melodia”.

Muitas vezes é difícil encontrar as palavras certas para definir emoções.

Caracterizar ou descrever um desporto como os Ralis, que mexe com tantos aspetos e variáveis, é um exercício complexo: fazê-lo de maneira simples e sucinta, mais ainda.

Com a mestria dos sábios, Rauno Aaltonen em declarações recentes à revista AutoFoco [edição nº 599, de 15 a 21 de Setembro de 2011], socorreu-se de pouco mais de meia-dúzia de palavras [as certas] para, de forma superior, sintetizar o que é, afinal, esta modalidade.

Hoje, com umas tão respeitáveis quão joviais setenta e três primaveras, Rauno continua a ser um observador atento do automobilismo.

Foi um dos melhores pilotos da sua geração.

Em certa medida é uma espécie de guia espiritual para toda a dinastia de finlandeses voadores [vd. P.E.C. Nº 76 deste blogue], seus compatriotas, que de há cinco décadas a esta parte confunde-se com a própria história dos Ralis.

Pela lucidez e sentido crítico aguçado, Aaltonen tem acrescida respeitabilidade quando profere declarações em público.

Possui uma visão global do fenómeno dos Ralis.

Não está preso pelas amarras do tempo à sua época.

Daí que quando, com desarmante e inusitada simplicidade, descreve de forma tão bela este mundo dos Ralis, não só concordamos à vírgula com as suas palavras, como até incentivamos que elas ganhem contornos de máxima universal.




2 - “É considerado o primeiro finlandês voador, e foi ele que introduziu novas formas de conduzir em ralis com a técnica do pêndulo e a travagem com o pé esquerdo, que serviam para aumentar a performance do piloto e a segurança em situações de emergência.
Aaltonen contou-nos como usava a espectacular técnica do pêndulo: «Ao chegar a uma curva, por exemplo, para a direita, travava e virava o volante um quarto de volta para a esquerda, provocando a derrapagem, só depois virava o volante para a direita. Este balanceamento do carro esquerda/direita ajudava a traseira a rodar e a descrever a curva mais depressa, e sempre com as rodas viradas para o lado de fora da curva. Muitas vezes engrenava uma mudança inferior e, no momento de virar o volante, soltava rapidamente a embraiagem para provocar uma derrapagem maior». Técnica praticamente abandonada com os carros de tracção integral.
Já a travagem com o pé esquerdo mantém-se. «Travava com o pé esquerdo ao mesmo tempo que acelerava, isso permitia manter o motor em carga e as rodas de tracção a girar. Era mais fácil e segura de executar em carros de tracção dianteira»”. 
[AutoFoco nº 599, de 15 a 21 de Setembro de 2011].


Há pilotos que conduzem: sentam-se no carro e guiam o melhor que sabem.

E há os que vão mais além: estudam com minúcia o automóvel e as suas características, procurando ao volante experimentar todo e qualquer pormenor que leve a um incremento de rapidez.

Rauno Aaltonen terá sido uma síntese perfeita destas duas ideias.

Como se percebe do texto que acima republicamos, o escandinavo introduziu na década de sessenta laivos de pioneirismo na condução de carros de Ralis.

É da sua pena a técnica apurada de balancear o automóvel à entrada da curva para mais facilmente otimizar a aceleração à sua saída, exercício que faria escola para todos os grandes pilotos durante décadas a fio.

Mais que as palavras, o magistral vídeo que segue mostra ao pormenor como Rauno colocava em prática a sua forma de descompensar o carro em travagem.

Tudo o que possamos escrever será sempre redutor para relatar com precisão a beleza que as seguintes imagens encerram.

A plasticidade do ato de condução em carros tão exigentes é soberba.

A condução e a narrativa de Aaltonen são por si só uma récita para ficar na memória.

No fundo, ao fim ao cabo, “os ralis são arte, paixão e emoção. É como ouvir uma música com boa melodia”.



A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
http://www.windingroad.com/articles/blogs/forgotten-racing-heroes-rauno-aaltonen/

RAUNO AALTONEN EM ENTREVISTA:





sexta-feira, 16 de setembro de 2011

P.E.C. Nº 97: Ralis à porta fechada?



Está à porta a próxima etapa do campeonato de Portugal de Ralis.

Amanhã, sábado, disputa-se o «Rali Centro de Portugal», como sempre pensado e organizado pelo Clube Automóvel da Marinha Grande.

O clube da cidade do vidro e do molde é, em Portugal, das poucas organizações dedicadas à organização de provas de automobilismo com uma visão sustentada do seu âmbito de ação.

Sabe o que faz.

E sabe o que quer fazer.

O seu historial de competência quase obriga, assim, que lhe seja confiada a missão de colocar no terreno Ralis pontuáveis para as mais importantes competições nacionais: C.P.R. e Open de Ralis.

Na P.E.C. Nº 91 deste blogue tecemos algumas considerações sobre o «Rali Centro de Portugal» que se avizinha, não regateando aplauso à forma como a equipa diretiva soube uma vez mais rejuvenescer a prova, injetando-lhe interesse competitivo.

Há, no entanto, um reparo que entendemos dever fazer, que se prende com o enorme atraso com que foram disponibilizados os mapas, coordenadas e acessos a quem pretende seguir o Rali.

Está em voga uma certa moda, generalizada, de olhar para o público que assiste aos Ralis como uma espécie de estorvo ou empecilho para quem coloca as provas na estrada.

Os adeptos, é importante que se realce, estão longe de ser a fonte de todos os problemas que se deparam aos clubes organizadores.

O pulsar de um bom Rali, aliás, mede-se também em grande medida pela quantidade de moldura humana que incentiva entusiasticamente carros e pilotos a cada passagem.

Criar condições para que os aficionados acorram massivamente às classificativas, passa por atempadamente lhes facultar o máximo de informação possível sobre as mesmas.

Tal como pilotos e equipas, também os adeptos necessitam de preparar com tempo os seus Ralis: radiografando as classificativas, inventariando os melhores locais para ver o evoluir dos carros, medindo distâncias, traçando ligações entre troços.

O mais eficaz roadbook que uma organização pode ceder ao público dos Ralis dá pelo nome de mapa da prova.

Sem um prévio conhecimento de acessos, horários e locais para assistir às provas, o risco da grande massa de espetadores acorrer aos troços de forma desorganizada é elevado.

As entidades organizadoras há já alguns anos que nos habituam a ver o público apenas como uma mera questão de segurança, quando talvez o devessem perspetivar enquanto peça indispensável do evento.

Menos pessoas acarretam menos problemas, prevenindo possíveis dores de cabeça à direção de prova: é uma lógica espúria.

Numa altura em que muito se fala na necessidade de seduzir patrocinadores e assegurar-lhes o retorno do respetivo investimento, talvez seja importante pensar que ninguém deposita milhares de euros no desporto automóvel se as classificativas portuguesas, despidas de calor humano, se assemelharem a tudo a uma sala de estar sem mobília.

O sucesso de um Rali constrói-se com público.

A divulgação de um Rali faz-se muito da fotografia que o público partilha no facebook e do vídeo publicado no youtube.

Nessa medida, escapa-nos por completo a razão pela qual o C.A.M.G. apenas a escassos dias do seu Rali mais emblemático tornou públicos os mapas da prova.

Se foi por estratégia, o erro parece-nos clamoroso: se foi por distração a falha devia ter sido evitada.

A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://famalicaomotor.blogspot.com/2010/04/algumas-galerias-e-videos-do-rali-de.html

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

P.E.C. Nº 96: Como o excesso de informação pode 'matar' os Ralis...



O automobilismo é pródigo em exemplos assim: uma só equipa, dois pilotos carregados de ambição, ambos formatados para apenas aceitar a vitória.

Num contexto destes, mais tarde ou mais cedo a sã concórdia esvai-se e a harmonia deteriora-se inexoravelmente.

Na Citroen, adivinhava-se que o verniz estalasse mais tarde ou mais cedo.

Dentro da equipa gaulesa, os condimentos habituais neste tipo de situação [um campeão consagrado e fortemente motivado em manter o seu estatuto, versus um jovem cheio de talento e sequioso de glória, disposto a tudo para tomar de assalto o trono máximo da competição] estavam em processo de efervescência na sequência da troca de galhardetes entre Loeb e Ogier nas últimas semanas, especialmente após as supostas ordens de equipa havidas durante o Rali da Alemanha.

Na Austrália, o clima de conflito latente explodiu: em prejuízo de si próprios e da sua equipa, os dois pilotos franceses protagonizaram saídas da estrada mal o Rali tinha saído do Parque de Assistência.

Um epílogo que não causa surpresa; mas que deve constituir motivos de preocupação para Olivier Quesnel.

Em rigor, na atual temporada já não é a Ford ou os seus pilotos que poderão ganhar os respetivos campeonatos, antes a Citroen e a dupla de franceses ao seu serviço que os poderão perder.

Será interessante perceber, nas próximas semanas, que sequelas poderão advir da coexistência entre Loeb e Ogier no seio da equipa do double chevron.

O Rali da Austrália forneceu-nos, porém, outro dado curioso.

Nas declarações que proferiu após o seu capotanço na quarta especial da prova [as imagens mostram uma classificativa verdadeiramente sublime, repleta de encadeados de curvas a obrigar a permanente condução], Sébastien Loeb referiu ter-se «desconcentrado momentaneamente» por ter «olhado para um "tempo intermédio" não travando o que devia», levando a que «entrasse depressa demais naquela direita, o carro batesse no talude e depois capotássemos…».

Vivemos na era da informação e o automobilismo não escapa a essa lógica.

Nos últimos anos os carros do WRC têm transportado no seu interior um dispositivo chamado Dashboard.

Este mecanismo permite aos pilotos saber, em tempo real, através de sucessivas mensagens que vão passando no seu tablier, que tempos intermédios os principais adversários vão fazendo na classificativa e, sobretudo, quais os cronos finais que os predecessores no troço realizaram.

Quando seria suposto a dupla de pilotos perspetivar um troço no seu todo, adequando o andamento à totalidade da extensão do mesmo, o Dashboard 'dita' variações de andamento consoante a maior ou menor rapidez dos adversários.

Está-se mais rápido que a concorrência? 

Levanta-se o pé na parte final da classificativa! 


Os tempos parciais são piores que os dos rivais diretos? 

Arrisca-se então mais um bocadinho...


Mas o Dashboard faz mais.

Informa, no imediato, a classificação geral do Rali atualizada em função dos tempos realizados pelos adversários que antecedem um piloto na classificativa.

É isso que permite, depois, os sucessivos espetáculos indecorosos a que vamos assistindo nas provas em terra do campeonato do mundo de Ralis, dos quais Ford e Citroen não saem incólumes.

Para não abrir os troços no dia seguinte, cada piloto entra em modo de pausa na fase final da última classificativa do dia anterior, em função daquilo que já sabe serem os tempos totais dos seus rivais no final da etapa.

De acordo com a informação que o Dashboard lhe fornece, interrompe o seu andamento sabendo perfeitamente quantos segundos tem de ficar parado de molde a que, quando recomeça e passa na tomada de tempos, possa não só não ser o primeiro na estrada no dia seguinte, como ainda garantir posicionar-se a poucos segundos de distância para quem o antecede na classificação do Rali.

Somos assumidamente opositores de guiar em Ralis numa lógica de ioiô, subvertendo a filosofia da modalidade.

Conduzir carros potentes em competição deve ser por definição um ato emocional, físico, psicologicamente exigente.

Os melhores pilotos do mundo estão a ser alvo de um processo de robotização, nefasto para um desporto que pretende premiar a coragem, destreza, reflexos e qualidade de condução.

Quando a elite das elites se despista por estar a olhar para o Dashboard, estamos perante um reflexo dos tempos atuais em que assimilar informação se vai tornando mais relevante do que ler a estrada à frente do capô.

Num momento em que tanto se discute a extensão dos Ralis e parece haver um certo deslumbramento da FIA em aumentar a quilometragem dos mesmos [erradamente, a nosso ver], continua a parecer-nos que o trabalho a realizar nos Ralis não deve incidir na esquematização das provas, mas antes no controlo da parafernália tecnológica dos carros.

A revitalização da modalidade é aí que tem de encontrar o cerne das questões que, no presente, se lhe vão colocando.



A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TÓPICO FOI OBTIADA EM:
- http://www.redbull.ro/cs/Satellite/ro_RO/Article/Ogier-la-prima-victorie-impotriva-lui-Loeb-021242855433278

domingo, 4 de setembro de 2011

P.E.C. Nº 95: O homem que pilotava com o coração



Os dois pequenos excertos de imagens publicados na presente 'P.E.C.' reportam-se ao ‘Rali Iduna Dão/Lafões’, penúltima prova do campeonato nacional de Ralis de 2004.

Após alguns anos de ausência, José Carlos Macedo, sempre acompanhado por Miguel Borges, ainda que esporadicamente voltava a emprestar a sua lendária determinação às provas de estrada nacionais.

Acedendo ao desafio que a SIVA à altura lhe formulou para ajudar a desenvolver o Skoda Fábia RS TDI para Ralis [um projeto interessantíssimo levado à prática pela Opção 04, adequado à realidade dos Ralis portugueses mas que, como muitos outros, capitularia perante o anacronismo regulamentar do automobilismo deste país], o bracarense regressava ao mundo que o fez ícone.

A motivação e profissionalismo estavam [sempre estiveram] lá, completamente intactos, como aliás o próprio piloto frisava nas declarações proferidas antes da prova:

"Guiei o carro em cerca de 120/130 quilómetros de testes e gostei imenso desta minha experiência a diesel. É evidente que não estamos perante um S1600, mas creio que se enquadra perfeitamente no patamar a seguir em termos competitivos. O comportamento é ótimo, a suspensão e os travões são perfeitos, e creio que apenas haverá que melhorar a direção, mas também não é por aqui que o Fábia deixa de ser uma proposta muito aliciante. É já com alguma impaciência que aguardo este regresso com o Miguel Borges e estou convencido de que rapidamente me adaptarei ao estilo de condução que o carro necessita. Trata-se de um regresso esporádico, mas que certamente me irá dar muito prazer."
[in: http://www.supermotores.net/sm/noticia.asp?id=3622]

Macedo tinha uma relação distante e até algo ‘indiferente’ com o travão, ao mesmo tempo que mantinha um sanguíneo pacto de irmandade com o acelerador.

A rija têmpera minhota impunha-lhe a entrega total, sem rendições de qualquer espécie, redefinindo a cada metro de troço a noção de limite.

Antes quebrar, claro, que torcer.

Deixou gravado o seu nome a letras de ouro nos Ralis em Portugal.

Pela sua tenacidade.

Pela recusa em capitular ou ceder, mesmo nas inúmeras ocasiões em que o seu carro era visivelmente menos competitivo que os dos seus adversários diretos.

Pela forma como parecia driblar cada curva com o volante colado nas mãos.

Voltaremos futuramente neste blogue a ‘Nini’ Macedo.

Fica, para já, o simbolismo das imagens que seguem: os troços finais da sua carreira nos Ralis, os últimos cartuchos do seu admirável percurso desportivo.

O bracarense nunca mais regressaria à competição ao mais alto nível.

José Carlos Macedo foi contemporâneo de vários dos melhores pilotos nacionais da história desta modalidade.

Depois da sua passagem pelo automobilismo continuou a haver pilotos extraordinários.

Não embarcamos no jogo volátil de saber se o piloto de Braga era melhor ou pior piloto que os mais importantes nomes do passado e presente dos Ralis em Portugal.

Macedo era diferente: genuíno.

Macedo era Macedo, sem haver alguém que o conseguisse imitar.

Avesso a rigores científicos, será recordado como o piloto que, numa modalidade que exacerba emoções, punha sentimento na condução.

Macedo só assim sabia conduzir.

Só assim os Ralis lhe tinham lógica e razão de ser.

Com a sua partida encerrou-se simbolicamente um capítulo na história dos Ralis lusos.

O empenho profundo, a negação em capitular, a provocação permanente ao limite do carro, da estrada e de si próprio, foi o legado de José Carlos Macedo que, volvidos sete anos, só a espaços foi entretanto recuperado por pilotos como Pedro Leal ou Ricardo Teodósio.

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A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&t=1509&start=0

NOTA:
- A hiperligação que reproduzimos acima, do extraordinário fórum 'Ralis a Sul', constitui um documento fotográfico essencial para se compreender na plenitude o percurso desportivo de José Carlos Macedo, quer no âmbito dos Ralis, quer no contexto das provas de velocidade.