P.E.C. Nº 114: «São muitos anos a virar frangos»...


A edição deste ano do «Rali Casinos do Algarve» pode ter sido [o futuro o confirmará…] uma mudança de paradigma no contexto dos Ralis nacionais.

A vitória retumbante [ou até mais que isso...] de Ricardo Teodósio e João Luz veio recentrar o debate em torno do preconceito regulamentar que, historicamente, as entidades responsáveis pela gestão do nosso automobilismo têm votado a carros que ainda não são suficientemente antigos para ser considerados clássicos, mas já têm anos de vida bastantes para ter perdido a homologação desportiva que lhes permita competir no campeonato de Ralis de Portugal.

Estes carros, na sua meia-idade, personificam um pouco o paradigma do mercado laboral em Portugal: não são suficientemente velhos para a 'aposentação', nem suficientemente jovens para garantir 'colocação' junto da competição maior das provas de estrada deste país.

A Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting, num automobilismo exíguo em participantes, tem encarado a questão com a ligeireza de quem nega oportunidades a um conjunto de carros em regime de 'desemprego' que pairam por muitas garagens desse país fora.  

O nosso país, não nos cansamos de o referir, não comporta duas competições como o C.P.R. e o Open de Ralis, pelo menos nos seus figurinos atuais.

O presente e o futuro próximo vão tornar deveras problemático angariar patrocínios numa lógica de temporada completa.

Programas incompletos e gestão de participações prova-a-prova em função dos apoios entretanto conseguidos irá ser um cenário frequente.

Nessa medida, parece-nos um sinal profundamente errado discriminar negativamente quem faça aparições esporádicas no C.P.R. ou Open de Ralis não estando inscrito na totalidade de provas daquelas competições.

É adulterar a filosofia do automobilismo [premiar a rapidez...] não oficializar vitórias ou pódios, ou ignorar pontuações obtidas no âmbito da classificação geral de um campeonato.

Neste contexto, a vitória de Teodósio no «Casinos do Algarve» foi especial.

Aliás, Ricardo Teodósio é um piloto especial, por estes dias navegado por um copiloto também especial.

A forma muito autêntica e desbragada como se relaciona com os demais atores da modalidade, dos adversários diretos ao mais anónimo dos aficionados, fazem dele um interlocutor despido dos adereços do politicamente correto.

Transformam-no em alguém como nós, com quem se troca descontraidamente dois dedos de conversa.

Aliada à sua simplicidade há, depois, a forma empenhada como conduz, nunca baixando os braços ou esmorecendo a sua motivação.

Na última prova da temporada de 2011 do campeonato de Portugal de Ralis, Teodósio abalou convicções ancestrais do automobilismo português, subvertendo a lógica de «gastar para ganhar».

Nas classificativas ao redor da Foia fez melhor com menos que os adversários.

Demonstrou cabalmente que mais euros não significam necessariamente menos segundos no final do troço.

Deixou ‘recados’ em várias direções, transmitindo a ideia de que à margem dos gordos patrocínios das multinacionais, há diversos projetos privados que são válidos e potencialmente vencedores assim lhes seja concedida igualdade de oportunidades.

Ricardo Teodósio nunca corre para perder.

Esse princípio, aliás, é comum a todos os pilotos que entram em competição para obter resultados de relevo.

Todavia o algarvio pertence a uma casta, mais rara, que prima pela diferença: aquela que não só não corre para perder, como também corre como quem não tem nada a perder.

A semântica é parecida: as diferenças [que transparecem na condução] são consideráveis.

-----     -----     -----     -----     -----

A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
https://fanaticosdorally.files.wordpress.com/2011/11/img_3218xx.jpg

Comentários