sábado, 26 de junho de 2010

P.E.C. Nº 10: Pedro Peres; quanto vale um apelido?...



O observador e o adepto de Ralis sucumbem muitas vezes à tentação de escrutinar, por norma à margem dos estritos limites da prestação em dada prova ou campeonato, pilotos portadores de laços familiares com individualidades que se notabilizaram em épocas passadas na modalidade.

Fazer comparações e dar livre curso a um certo espírito 'voyeurista' é, sempre foi, algo intrínseco à condição humana e as provas de estrada não escapam, claro está, a esta máxima.

O clã Peres desde há várias décadas a esta parte tem vindo a deixar a sua marca nos Ralis nacionais, materializada em forma de vitórias e títulos.

Se o vasto curricula do mais insigne representante desta família - Fernando - fala por si dispensando comentários adicionais, outro nome - Pedro - vai trilhando com passos firmes o seu caminho no âmbito do automobilismo português.

Não cabe aqui discutir se as três vitórias de Pedro Peres no Open de Ralis - 2007, 2008 e 2009 - foram conquistadas à custa da pretensa supremacia técnica do seu Ford Escort Cosworth relativamente à concorrência, ou se o facto de competir numa equipa familiar lhe franqueou mais facilmente a porta do sucesso.

Sabe-se que o primeiro dos citados títulos foi obtido in extremis perante o Mitsubishi Lancer do combativo Luís Mota, mas já nas duas épocas seguintes o mais novo elemento da família soube apresentar credenciais, caminhar pelos seus próprios pés (aqui e ali com um ou outro trambolhão e cambalhota, tão naturais quanto úteis para enrijecer a têmpera de quem pretende fazer carreira ao mais alto nível) afirmando-se como um dos mais interessantes valores, a par do promissor Daniel Ribeiro, a ter em conta para o futuro dos Ralis em Portugal.



Impressiona a forma como Pedro Peres, debutando na presente temporada no Campeonato de Portugal de Ralis, tem vindo a abordar as suas provas.

Uma grande base de realismo moldada pela experiência adquirida em épocas anteriores, tem sido a chave para uma época até ao momento assaz positiva, onde se destaca naturalmente o excelente resultado obtido no Rali de Portugal.

Ainda à procura do melhor entrosamento com seu Mitsubishi Lancer Evo IX do agrupamento de Produção, num terreno para si desconhecido e numa prova com características distintas daquilo a que sempre esteve habituado, no Algarve Peres suplantou com distinção adversários bem mais experientes, alguns deles tripulando viaturas substancialmente mais competitivas se comparadas com a sua; apenas foi superado por Armindo Araújo e Bernardo Sousa na refrega sempre muito especial pela conquista do melhor lugar final entre pilotos lusos, resultado que tudo esclarece quanto à qualidade do seu desempenho.

Nos últimos anos, o Open de Ralis teve um acréscimo de projeção mediática pelo facto de ali se evidenciar o primo mais novo do campeão nacional absoluto de 1994, 1995 e 1996, matéria que se renova noutro plano na presente temporada com a interessantíssima prestação de Manuel Coutinho, também ele ilustre representante de uma família com pergaminhos no desporto automóvel deste país.

Pedro Peres carrega consigo, para o melhor e para o pior, o peso e a responsabilidade de um nome sonante.

Porém não deixa de ser verdade que em cada Rali que tem realizado, sempre que sai do parque de assistência vai procurando afirmar-se por si, deixando o apelido para trás das costas, guardado a salvo no camião-oficina.

OPEN DE RALIS/2008: Rali Vidreiro [12-04-2008] - Classificativa 'Marinha Grande 2' -
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OPEN DE RALIS/2008: Rali Vidreiro [12-04-2008] - Classificativa 'São Pedro 2' -
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OPEN DE RALIS/2008: Rali de Arganil [17-05-2008] - Classificativa 'Alqueve 1' -
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OPEN DE RALIS/2008: Rali de Arganil [17-05-2008] - Classificativa 'Alqueve 2' -
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 2] - 'SANTA CLARA 1' -

As fotos publicadas no presente trabalho foram obtidas em:
- http://2.bp.blogspot.com/_8RNfEzRq0ug/R1RQJcSyxiI/AAAAAAAAAeQ
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- http://1.bp.blogspot.com/_dys_ToKXR-A/R1SSnXh9I8I/AAAAAAAAATU
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terça-feira, 22 de junho de 2010

P.E.C. Nº 9: Juha Kankkunen; a competição como forma de vida...



Em declarações ao sítio autosport.com proferidas nos últimos dias [reproduzidas também em alguns outros órgãos de imprensa escrita], o 'eterno' Juha Kankkunen, campeão do mundo de Ralis em 1986, 1987, 1991 e 1993, aos 51 anos de idade [n: 22-04-1959] alvitrou a hipótese de regressar à competição automóvel ao mais alto nível, manifestando intenção de se inscrever no Rali da Finlândia da presente temporada, a disputar no último fim-de-semana do próximo mês de Julho, ao volante de um Ford Focus RS WRC.

A confirmar-se esta é, por várias ordens de razão, uma boa notícia.



Kankkunen, enquanto expoente destacado da geração de ouro dos denominados 'finlandeses voadores', será ainda hoje o intérprete que, em toda a história do campeonato do mundo, melhor terá protagonizado uma certa ideia de transição intergeracional entre as várias épocas de Ralis.


Há vários pilotos que nas suas carreiras ostentam mais de um título absoluto de campeão mundial de Ralis.

- Walter Rohrl [1980 e 1982], não obstante a reconhecida competência que faz dele, ainda hoje, uma lenda viva deste desporto, conquistou dois campeonatos numa época muito específica, antes do advento dos 'Grupos B' puros e duros.

- Miki Biasion [campeão em 1988 e 1989] terá para sempre a sua carreira e palmarés demasiadamente associados à [muito saudosa] equipa oficial da Lancia.



- Carlos Sainz sagrou-se campeão do mundo em 1990 e 1992 ao volante de carros estruturalmente idênticos entre si, apenas conseguindo destacar-se neste particular aspeto [títulos] ao serviço do Toyota Team Europe, não obstante ter dado mostras de tudo o seu virtuosismo quando esteve integrado nas estruturas da Subaru, da Ford e, porventura em menor escala, da Citroen.



- Tommi Makkinen [1996, 1997, 1998 e 1999] fez carreira no estertor dos automóveis de Grupo 'A' [numa altura em que os WRC davam os primeiros passos no mundial de Ralis], moldou toda uma equipa à sua ética e metodologia de trabalho corporizando, ele próprio, o rigor nipónico na abordagem à competição [numa altura em que marcas como a Subaru e Toyota repartiam vitórias e títulos com a sua equipa], ficando contudo eternamente circunscrito à Mitsubishi e à equipa Ralliart.



- Marcus Gronholm [2000 e 2002], não obstante as diversas épocas ao serviço da Ford em que pontificou ao mais alto nível, tem o seu percurso muito moldado pelo modelo 206 WRC da Peugeot.

- Loeb [2004, 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009], por seu turno, é o produto e expoente máximo da geração tecnológica de automóveis de Ralis do Século XI, conquistando todos os seus títulos ao serviço de uma só equipa [Citroen].



Todos eles são indesmentivelmente nomes lendários nos Ralis, gravando os seus nomes a letras de ouro nos anais da disciplina.



Mas por motivos de diversa ordem, têm, como vimos, as suas carreiras e vitórias algo segmentadas no tempo ou conectadas com determinadas marcas e/ou equipas.



Juha Kankkunen tem um percurso distinto: ao piloto de Laukaa deve ser-lhe reconhecido não só o crédito de ter realizado uma longa carreira competindo no mundial de Ralis [entre 1983 e 2002] quase sempre ao serviço de equipas oficiais, mas também qualificá-lo como um dos grandes baluartes da abordagem imaculadamente profissional à competição, além de ser o exemplo perfeito da conjugação entre a ambição de ganhar e o mais apurado sentido de desportivismo.



Não se pode dizer que, de entre os pilotos finlandeses, o popular 'KKK' tenha sido um repentista como Toivonen, um criativo como Alen, ou um velocista puro como Vatanen.



Kankkunen, em contraste, era um geómetra perfeito e rigoroso, desenhando trajetórias a régua, esquadro e compasso.



Quatro títulos de campeão do mundo atestam de forma eloquente os seus méritos: são um certificado de competências ao alcance de muito poucos.



Porém, não deixa de impressionar o facto de tais triunfos terem sido conquistados ao serviço de equipas e formas de encarar a competição tão distintas como a Peugeot em 1986 [no auge dos Grupo 'B'], Lancia em 1987 e 1991 [carros de grupo 'A', mas separados por uma espaço de 4 anos onde os Ralis sofreram mutações consideráveis] e Toyota em 1993.



Boa parte do carisma de Kankkunen virá da honestidade e lisura que sempre pautaram a sua carreira, além dos indesmentíveis dotes de condução que lhe permitiram obter 23 vitórias no campeonato do mundo de Ralis, espaçadas por 14 anos de distância [Rali Safari, 1985, Toyota Celica Twincam Turbo 2WD; Rali dos 1000 Lagos, 1999, Subaru Impreza WRC 4WD].



Se outros méritos não tiver, estamos em crer que este anunciado regresso de 'KKK' traz forçosamente uma nota acrescida de credibilidade e honradez ao universo do WRC, sobretudo num tempo em que muitas das provas, sobretudo em terra e gravilha, têm sido decididas através de subterfúgios e estratagemas táticos que inquinam fortemente a imagem da disciplina.



Ninguém esperará uma façanha por parte de Juha que lhe possibilite entrar na luta pela vitória, ou mesmo até ter uma palavra a dizer na disputa pelos restantes lugares do pódio.



Porém, fica seguramente a certeza que o veterano piloto finlandês irá para os '1000 Lagos' disposto a dar o melhor de si; o resultado final refletirá com clareza aquilo que nesta altura Kankkunen poderá valer.



Quem assistiu ao 'Rali de Portugal Revival' e recordou KKK e Grist, saberá que menosprezá-lo(s) logo num dos seus palcos diletos [Juha venceu na Finlândia em 1991, 1993 e 1999] pode vir a causar sérios engulhos a muito boa gente.

Além do mais, nesta época submersa pelo obscurantismo dos cânones do politicamente correto, não deixa de ser reconfortante imaginar Kankkunen de regresso aos Parques de Assistência, saboreando pausadamente as suas tão clássicas quanto inconfundíveis cigarrilhas.

TRIBUTO A JUHA KANKKUNEN:
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As fotos presentes neste trabalho foram colhidas em:
- http://www.enler.org/enhizli/kankkunenSSP_vi.jpg
- http://www.google.pt/imgres?imgurl=http://i138.photobucket.com/ albums/q277/otoxiep/1994-JuhaKankkunen-ToyotaCelicaG-1.jpg&imgrefurl=
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- http://autosport.aeiou.pt/users/0/51/2b0dd808.jpg
- http://i138.photobucket.com/albums/q277/otoxiep/1998-JuhaKankkunen-FordEscortWRC.jpg
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- http://www.ilkansivu.net/NesteRally2002/ EK_02_Valkola_026_Juha_Kankkunen_ja_Juha_Repo_ Hyundai_Accent_WRC_3.jpg
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- http://www.coregliarally.it/ nuova_pagina_8.htm&usg=__cgCveE7sXR8uAlM-gC7THJI7Kqk=&h=269&w=364&sz=20&hl=pt-PT&start=308&sig2=CQ73uoCFFTPPl1yH7yVtMw&um=1&itbs=1&tbnid=LdVL82k1it2EzM: &tbnh=89&tbnw=121&prev=/images%3Fq%3Djuha%2Bkankkunen%2Bphotos%26start% 3D300%26um%3D1%26hl%3Dpt-PT%26sa%3DN%26ndsp%3D20%26tbs%3Disch:1&ei=NKYiTJODDMKe_AbQ_MX4BA
- http://img249.imageshack.us/f/nz86kankkunenmb9.jpg/

domingo, 20 de junho de 2010

P.E.C. Nº 8: Uma outra... «Face Oculta»...




Zona-Espectáculo não é um espaço para tergiversar sobre política, nem para perorar sobre o andamento de processos judiciais.

As únicas 'escutas' que nos motivam são o barulho dos motores a alta rotação em plena classificativa, e quanto a 'negócios com estações televisivas' apenas nos preocupa, claro, as reportagens, os diretos e os diferidos de provas de Ralis.

Questionará o nosso visitante os motivos pelos quais, então, intitulamos o presente trabalho de «Uma outra... Face Oculta».

É possível que o caro leitor desconheça, à primeira vista, quem é o venerável cavalheiro cuja foto enquadra o presente tópico.

Se lhe dissermos que é uma figura de enorme prestígio na história do campeonato do mundo de Ralis, levantando um pouco a ponta do véu e fornecendo-lhe algumas pistas, não subestimando a sua memória e capacidade de análise acreditamos haver fortes hipóteses de, ainda assim, não conseguir identificar de quem afinal se trata.

O homem em causa foi, asseveramos-lhe, um dos melhores navegadores da história dos Ralis.

Ainda assim não o consegue identificar?

É natural.

Aos navegadores de Ralis, num tempo cada vez mais mediatizado e onde se valoriza quase em regime de exclusividade a figura do piloto, vai sendo dado um destaque cada vez mais diminuto aos homens e mulheres que se sentam no lado direito dos carros de Ralis.

É deles, dos navegadores[as] de Ralis, que cuida o presente artigo de opinião.

Os copilotos, na gíria do automobilismo também conhecidos como 'penduras', são uma espécie de «Face Oculta da Lua»: sabemos que 'estão lá', têm uma função tão ou mais relevante no sucesso de uma prova ou de um campeonato do que os pilotos propriamente ditos mas, sobretudo no reconhecimento mediático [o palco privilegiado onde hoje em dia tudo acontece], ninguém os ''.

O desporto automóvel, sobretudo no plano das provas e campeonatos organizados à escala global, é pródigo em produzir heróis e alimentar lendas que, não raras vezes, perduram muito para além do final das respetivas carreiras.

A mediatização exacerbada, para o melhor e para o pior, que hoje envolve os principais campeonatos do mundo ao nível do automobilismo, projeta incessantemente em todo o planeta uma série de nomes e rostos que nos habituamos a admirar e seguir.

Todavia o automobilismo em geral também produz as suas injustiças e é por vezes cruelmente avesso em reconhecer o trabalho de muitas pessoas que, longe do palco dos órgãos de comunicação social, são verdadeiramente decisivas para o êxito de um projeto ou para a construção das vitórias.

Hoje, como referimos anteriormente, quem não aparece com regularidade nos ecrãs das televisões, quem não se publicita pela via da internet, quem não se divulga através dos jornais e revistas, acaba por ser uma personalidade quase inexistente e sem visibilidade neste mundo global.

Tudo isto vem a propósito dos Ralis, e da indiferença a que são votados os copilotos, ou navegadores, como quiserem.

Muitas vezes [quase sempre…], os créditos e os louros de um bom resultado vão para o piloto, tendendo o papel do navegador a passar para segundo plano.

Contudo, dentro de um carro de Ralis há uma verdadeira equipa [conceito manifestamente em perda...] na qual os atores têm um papel bem definido e cada um deles tem a sua quota-parte de responsabilidade nos sucessos e insucessos da mesma.

Não se pode dizer, em rigor, que é mais importante ou decisivo o papel do piloto ou do seu navegador: são missões que se complementam entre si e que dependem uma da outra, unidas por essa espécie de cordão umbilical que é a luta contra o cronómetro.

Se fizermos uma retrospetiva histórica, quer no plano nacional, quer ao nível do campeonato do mundo de Ralis, facilmente recordamos os nomes e rostos dos pilotos que mais se destacaram.

Mas por trás desses pilotos, dos virtuosos do volante que fizeram e fazem as delícias dos adeptos de Ralis em todo o planeta, há outros rostos fundamentais nos sucessos e momentos mágicos que só os Ralis, atrevemo-nos arriscar, podem proporcionar.

Um carro de Ralis, é muito mais do que um carro guiado com talento; a um «ás do volante» nas provas de estrada corresponde um outro «às» que, neste último caso, é em muitas ocasiões o «trunfo» que faz a diferença e garante vitórias.

Perguntará o caro leitor por que motivo, afinal, é o papel do navegador assim tão relevante.

Façamos um exercício de imaginação.

Imagine o caro leitor o que é ter que 'cantar' notas para alguém que vai a seu lado [e que confia em si cegamente, dando-lhe por isso enorme pressão e pouca margem de erro] durante mais de 30 minutos consecutivamente [como ocorre em algumas classificativas de maior extensão].

Repare: não há qualquer margem para falar um segundo mais cedo ou mais tarde, tendo que ser no momento exato.

Não pode engasgar-se, nem tão pouco engolir em seco.

Não pode gaguejar ou hesitar.

O seu tom de voz tem de ser suficientemente claro e impositivo para que seja assimilável pelo piloto em perfeitas condições, mas não pode ser demasiado alto de forma a diminuir a concentração a quem guia.

Aliado a tudo isso, tem de ter 'um olho no burro e outro no cigano', que é como quem diz olhar a estrada que está à sua frente, percecionar a distância para a próxima curva, mas ao mesmo tempo conseguir ler as anotações do seu caderno de notas.

Se o piloto pode corrigir um erro ou excesso de condução com um golpe de volante, o ritmo frenético dos Ralis não perdoa a mínima falha ao copiloto.

Caro leitor: já viu ou leu um roadbook oficial de uma prova de Ralis?

São uns livrinhos com centenas de páginas repletos de sinalética, que desde a saída do Hotel [muitas vezes às primeiras horas da madrugada] são a 'bíblia' e ferramenta de trabalho dos navegadores de Ralis.

Saber interpretá-los na perfeição [o que implica horas de estudo prévias], condicionado por vezes pela pressão do tempo que se vai esgotando da saída do parque de assistência para a classificativa [ou entre estas], acaba quase por ser uma arte bem mais complexa do que assimilar para o comum dos condutores as 'meras' sinalizações do Código da Estrada.

Mas há mais.

Antes de cada prova, o caderno de notas [muitas vezes visto, revisto e corrigido antes do Rali propriamente dito, exercício quase sempre repetido entre etapas] tem que ser impecavelmente transcrito, obrigando os navegadores a realizá-lo com perfeccionismo para memória futura.

Tem forçosamente de ser um minucioso e verdadeiro trabalho de paciência, passar para forma de letra e de gráficos 30 ou mais quilómetros de classificativa, ou os mais de 300 quilómetros cronometrados que caracterizam os Ralis pontuáveis para o Campeonato do Mundo.

Se tudo isto já é muito, sublinhamos-lhe ainda, caro leitor, a necessidade de ter uma noção de tempo especialmente apurada.

Ao que tudo se disse atrás, o navegador de Ralis tem de ser obrigatoriamente metódico e organizado para não errar nos controlos de partida e de chegada em cada troço, precisando também de avaliar o exato momento de entrada e saída do parque de assistência.

Quantos e quantos Ralis não se perdem ou ganham por erros dos navegadores nesta questão?

Quem se senta no banco do lado direito de um carro de Ralis, também tem de em plena classificativa, olhando para os tempos parciais dos adversários, percecionar o nível de andamento do seu piloto, incentivando-o se necessário para puxar um pouco mais pelo ritmo de prova, ou tendo de ter a arte e engenho para lhe refrear os ímpetos, de forma subtil ou mais enfática.

O presente tópico, mais não pretende do que promover uma simples humilde homenagem a todos aqueles e aquelas que, de forma abnegada e apaixonada, trocam o reconhecimento mediático e as honrarias daí advenientes, por todo um trabalho de sapa feito longe de holofotes e sem a distinção que lhes é [mais que] merecidamente devida.

Na nossa memória é raro ficar guardada a imagem do rosto de um copiloto de Ralis: a nossa memória é, por vezes, seletiva em excesso.

Se lhe falarmos, a título de exemplo, nos nomes de Miguel Oliveira, Edgar Fortes, Fernando Prata, Carlos Magalhães, Nuno Rodrigues da Silva, Luís Ramalho, Miguel Ramalho, António Manuel, Redwan Cassamo, Mário Castro, Miguel Borges, Ricardo Caldeira, Luís Lisboa, Paulo Grave, Sérgio Paiva, José Janela ou Ornelas Camacho, ou nos de, à escala internacional, Ilkka Kivimaki, Jean Todt, Fabrizia Pons, Marc Marti, Fred Gallagher, Nicky Grist, Michael Park, Luís Moya, Timo Rautiainen, Daniel Elena, Seppo Harjanne, Tiziano Sivieiro, David Richards, Daniel Grataloup, Phil Mills, Sérgio Cresto, Christian Geistdorfer, Arne Hertz, Juha Piironen, Bjorn Cederberg, Ilka Minor, Denis Giraudet, Risto Mannisenmaki ou Robert Reid, o caro leitor pode até não conseguir identificar os seus rostos.

Todavia, a prova insofismável da sua importância reside no facto de, na maioria dos casos, confiarmos que o caro leitor saberá perfeitamente a que piloto(s) os mesmos ficaram indelevelmente associados.

[Nota: o cavalheiro da presente foto chama-se Christian Geistdorfer. Se à primeira vista não conseguir descortinar quem é, dir-lhe-emos que foi navegador do eterno Walter Rohrl durante a maior parte da carreira do campeão do mundo de 1980 e 1982, e é alguém que, há cerca de 30 anos atrás, viria a protagonizar nos míticos troços de Arganil uma espécie de «visão sebastiânica» do melhor Rali do Mundo, ao emergir por entre névoas espessas e densas a toda a velocidade, naquele que é, sem favor, um dos mais episódios mais espetaculares e lendários de sempre da história dos Ralis em todo o mundo].

Para ilustrar com imagens as ideias expressas no presente trabalho, Zona-Espectáculo procura lançar pontes entre passado, presente e futuro, homenageando a carreira do espanhol Luís Moya e revelando em simultâneo o trabalho de Tiago Ferreira, navegador de Pedro Peres, durante o troço Verim/Soengas da edição do Rali Torrié do corrente ano.

HOMENAGEM A LUÍS MOYA:
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PEDRO PERES/TIAGO FERREIRA NA CLASSIFICATIVA Nº 5 [VERIM/SOENGAS]
DO RALI TORRIÉ, PROVA DE ABERTURA DO CAMPEONATO 
DE PORTUGAL DE RALIS/2010:
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[O presente tópico, agora objeto de revisão, foi publicado no fórum online da revista AutoSport em Janeiro do corrente ano].

sexta-feira, 18 de junho de 2010

P.E.C. Nº 7: Caramulo


A vila do Caramulo tem raízes antigas e tradições profundas na competição automóvel.

Situada nas encostas da Serra que lhe dá nome, ali se encontra sedeado o admirável 'Museu Abel Lacerda', no qual se encontra exposto um soberbo acervo de automóveis, motociclos e velocípedes clássicos, capazes de fazer seguramente as delícias de qualquer visitante, sem esquecer a emblemática mostra de viaturas de competição, de cuja coleção alguns exemplares fazem parte integrante do património automobilístico português.

No Caramulo, após alguns anos de interregno, disputa-se também a famosa Rampa agora rebatizada de 'Caramulo MotorFestival', evento que congrega muito justificadamente milhares de visitantes a cada edição.

Antigo sanatório desativado em meados do Séc. XX, no final dos anos oitenta e princípios da década seguinte o Caramulo acolheu em seis edições consecutivas do Rali de Portugal uma das classificativas da prova, ali se deslocando invariavelmente, por alturas do mês de Março, uma outra espécie de 'doentes' com uma estranha e indecifrável 'fixação', quase 'paranoica' diríamos, por provas de Ralis.

É esta antiga classificativa que agora lhe revelamos, com uma visita guiada ao seu interior.

a) Troço: Caramulo.
b) Piso: Asfalto.
c) Início: Na vila do Caramulo, em frente ao Hotel com o mesmo nome, imediatamente antes do início da subida [Latitude: 40º34'9.29''N; Longitude: 8º10'17.36''W].
d) Final: À entrada da povoação de Abóboda [Latitude: 40º35'32.35''N; Longitude: 8º14'34.62''W].
e) Anos em que se disputou: 1989 a 1994.
f) Quilometragens:

1989 – 14,10 kms;
1990 – 14,10 kms;
1991 – 14,10 kms;
1992 – 14,10 kms;
1993 – 14,08 kms;
1994 – 14,14 kms.

g) Resultados/vencedores:

- 1989 – Mássimo Biasion/Tiziano Siviero (Lancia Delta Integrale) – 8m:46s (96,50 km/h);
- 1990 – Mássimo Biasion/Tiziano Siviero (Lancia Delta HF Integrale 16v) – 8m:33s (98,95 km/h);
- 1991 - Mássimo Biasion/Tiziano Siviero (Lancia Delta HF Integrale 16v) – 8m:46s (96,50 km/h);
- 1992 – Mássimo Biasion/Tiziano Siviero (Ford Sierra Cosworth 4x4) – 7m:56s (106,64 km/h);
- 1993 - Cancelado por motivos não apurados;
- 1994 – Juha Kankkunen/Nicky Grist (Toyota Celica Turbo 4WD) – 8m:08s (104,31 km/h).

[Nota 1: Dados estatísticos compilados por João Costa].
[Nota 2: Imagens colhidas por David Matos].

A FOTO PUBLICADA NO PRESENTE TRABALHO FOI OBTIDA EM:
- http://www.panoramio.com/photo/8814725


quarta-feira, 16 de junho de 2010

P.E.C. Nº 6: A janela (in)discreta...


[Nota: Zona-Espectáculo revisita, com alterações de pequena monta, o texto por nós 
publicado em Março do corrente ano no fórum online da revista AutoSport]

Com considerável grau de fortuna e assumido privilégio, os acasos da vida têm-nos conduzido a acompanhar com regularidade e de forma presencial provas de Ralis.

Desde 1984, ano em que pela primeira vez pudemos testemunhar pessoalmente algumas das classificativas do Rali de Portugal, temos seguido várias das provas, nacionais ou internacionais, disputadas em cada temporada no nosso país.

Muito mudaram os Ralis nestes últimos 25 anos.

Os mais saudosistas enfatizam que as provas de estrada perderam brilho, espetacularidade e glamour.

É uma interpretação legítima e respeitável, mas em certo sentido condicionada pelas amarras do tempo.

Os Ralis, hoje, são simplesmente diferentes de outrora, sofrendo uma 'mutação genética' que é, julgamos, antes de mais o reflexo direto dos ditames da época atual, condicionada por fatores económicos e de pendor financeiro.

Não obstante procuramos uma certa ideia de integração no presente paradigma dos Ralis, há aspetos do passado que não podemos esquecer.

Às nossas memórias mais gratificantes, apelam pois, entre outros, fatores como o 'antigo' formato dos Ralis assente na diversidade e no elevado número de classificativas [contrastando com uma certa tendência dos nossos dias, quase obsessiva, em compartimentar claustrofobicamente as provas de estrada], ou o 'cantar' estridente dos motores dos carros que potenciava, à época, o aumento do batimento cardíaco dos espetadores a padrões similares às altas rotações dos bólides.

Há também outra questão que poderá à primeira vista parecer de detalhe, mas que a nós, como acreditamos a muitos outros entusiastas dos Ralis, deixa saudades.

Por motivos que atribuímos à procura de fazer baixar a temperatura no interior dos carros de Rali e, em simultâneo, evitar encadeamentos a piloto e navegador sempre que se deparam com o sol baixo e em posição frontal ao automóvel, desde o final dos anos noventa do século passado as viaturas de competição em provas de estrada vêm apresentando o seu envidraçado em tons espelhados ou escurecidos em fosco.

Um carro de Rali, antes uma janela aberta para o mundo [muitas vezes na sua aceção mais literal], foi-se paulatinamente tornando, em certo sentido, uma redoma fechada sobre si próprio.

Somos do tempo em que a deslocação aos Ralis era, não só mas também, perscrutar os pilotos em ação.

Há, nesta matéria, diversos rostos e imagens que sempre nos ficaram:

- Ver Tommi Makinen em Luílhas com um olhar faiscante enquanto assumia sincopadamente o volante do seu Mitsubishi como se de uma batuta de maestro se tratasse;

- Assistir ao trabalho de puro bandarilheiro de Carlos Sainz em Selada das Eiras, pegando no guiador como quem pega nos ferros para a faena de uma vida;

- Descobrir o saudoso Richard Burns e perceber a precisão cirúrgica e coerente de cada correção de volante que realizava em Ponte de Lima;

- Ou comparar o jogo de contrastes, no Confurco, entre a condução apocalíptica de Colin McRae, impregnada de tensão, e em simultâneo a sua expressão irradiando bonomia, distensão e tranquilidade, são flashes que não queremos nem jamais poderemos esquecer.

Tudo mudou [também] neste aspeto.

Mas não deixa de ser irónico que, quanto mais é vedado ao espectador de Ralis a perceção do que se passa no interior dos carros, mais existem uma miríade de câmeras televisivas, em todos os ângulos possíveis e imaginários, a despertar o sentido voyeurista que há em cada um de nós.

O centro de importância dos Ralis, sem que nos apercebamos, vai-se paulatinamente deslocalizando dos troços para os sofás.

Parece-nos, além de contranatura, uma péssima filosofia...

terça-feira, 8 de junho de 2010

P.E.C. Nº 5: Ogier na equipa oficial da Citroen? Que o diabo seja cego, SORDO e mudo!...



Notícias veiculadas no dia de hoje por alguma imprensa da especialidade, dão-nos conta da 'promoção' de Sébastien Ogier aos quadros da equipa oficial da Citroen, para com ela disputar três Ralis em piso de terra - 1000 Lagos, Japão e Grã-Bretanha - até final da temporada de 2010.

Caminho inverso fará o espanhol Dani Sordo, que apenas manterá, pelo menos para já, a posição de piloto oficial da marca do double chevron nos quatro Ralis em asfalto ou com piso misto que compõem a restante época - Bulgária, Catalunha, França e Alemanha -.

Divergindo de alguns outros quadrantes, não interpretamos esta notícia como uma quebra de confiança ou desmerecimento evidente de Olivier Quesnel nas capacidades do seu atual pupilo.

Pensamos, até, que a ideia poderá passar até retirar alguma pressão a Sordo tentando criar uma atmosfera de conforto que lhe possibilite, liberto das amarras comparativas com Loeb, potenciar as qualidades que muitos lhe reconhecem.

Sejamos claros: ser companheiro de equipa de Sébastien Loeb é tudo menos fácil e a atual estrutura desportiva da Citroen sabe-o melhor que ninguém.

Se fizermos, aliás, uma retrospetiva histórica, facilmente verificamos que campeoníssimos como Carlos Sainz ou Colin McRae, ainda que na trajetória descendente nas suas carreiras, saíram fragilizados quando estiveram na posição de pilotos oficiais da marca francesa após medição direta das suas prestações com as do pluricampeão francês.

Um piloto como o belga François Duval, que já havia antes estado debaixo do manto protetor da Ford, quando ingressou na Citroen rapidamente viu eclipsar-se o fulgor que muitos lhe auguravam, tamanha a diferença de prestações com o seu chefe-de-fila à época.

Não obstante a fasquia encontrar-se - demasiado? - alta e o tempo escassear, entendemos todavia prematuro e até precipitado anunciar-se, desde já, o início da curva descendente de Dani Sordo na alta-roda dos Ralis.

Se é certo que os ares do tempo estão nesta altura muito justificadamente a soprar na direção de Sébastien Ogier - que vai marcando pontos, posicionando-se a preceito para a sucessão de Loeb - estamos em crer que Sordo, competindo sob os desígnios da Citroen Júnior Team, livre de visibilidade mediática e sem a malha apertada de ter que ombrear diretamente com o atual campeão do mundo de Ralis, terá condições para chegar aos tão desejados como já merecidos triunfos.

Não podemos esquecer que há um mundo diferenças a separar uma equipa de cariz semiprivado e uma outra apoiada oficialmente por um construtor, como Jari-Matti Latvala, que tão boa conta de si deu na Stobbart, é exemplo bastante.

Aqui lhe deixamos, já que falamos nele, algumas imagens, exclusivas, da prestação de Dani Sordo nas edições de 2009 e 2010 do Rali de Portugal, sempre acompanhado pelo experiente navegador Marc Marti.

Sobre Sordo e Marti, Zona-Espectáculo recomenda-lhe também a visita à P.E.C. Nº 3 deste blogue...

RALI DE PORTUGAL/2009: [P.E.C. Nº 15 - 'São Brás de Alportel 1' - 16,23 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2009: [P.E.C. Nº 17 - 'São Brás de Alportel 2' - 16,23 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 2 - 'SANTA CLARA 1' - 22,72 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 3 - 'OURIQUE 1' - 20,21 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 5 - 'SANTA CLARA 2' - 22,72 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 9 - 'VASCÃO 1' - 25,23 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 12 - 'VASCÃO 2' - 25,23 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 15 - 'LOULÉ 1' - 22,51 quilómetros]:
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RALI DE PORTUGAL/2010: [P.E.C. Nº 17 - 'LOULÉ 2' - 22,51 quilómetros]:
video

[Nota: a imagem que ilustra o presente tópico, foi colhida em:
http://www.nkoracingdesign.com/paginas/pilotos/pilotos/fotos/dani-sordo.jpg]

segunda-feira, 7 de junho de 2010

P.E.C. Nº 4: Venha daí à boleia; vamos conhecer António Zanini?... - 1ª parte - [Introdução...]



Já há um bom par de anos a esta parte que o automobilismo espanhol, designadamente aquele que se pratica em circuito fechado no âmbito das disciplinas de velocidade, é tido pelos pilotos portugueses como uma alternativa válida e credível para sedimentar carreiras e robustecer palmarés.

Na última década e meia, seja no âmbito dos monolugares, no contexto das corridas de turismos, nas provas de troféus monomarca ou nas corridas de GT, dezenas de pilotos lusitanos, com diferentes graus de sucesso, têm direcionado as suas carreiras desportivas para o país vizinho.

Compreende-se que assim seja.

Portugal, enquanto país automobilístico, tem uma dimensão exígua em termos de projeção e reconhecimento internacional.



Daí que, compreensivelmente, haja a tentação dos nossos mais emblemáticos pilotos medirem forças com os seus congéneres internacionais, pondo-se à prova em competições que lhes permitam revelar as suas aptidões.

Tem sido assim e, acreditamos, vai continuar a ser assim.

Pelo menos no plano do desporto automóvel, por muito que nos custe assumi-lo, uma certa ideia de iberismo é desde há muito uma realidade insofismável, preparando porventura o caminho para uma cada vez mais gradual – e já concreta - miscigenação entre o automobilismo de Portugal e Espanha.

Nomes como Amorim, Gião, Couceiro, Mário Silva, Matos Chaves, Parente, Ramos, Amaral, Carvalho, Freitas, Neto, Saraiva, Neto, Vinagre, Veiga, Bravo, Duarte Félix da Costa, entre vários outros, têm sido os porta-estandartes do automobilismo luso em terras de nuestros hermanos, reais embaixadores da qualidade e talento que indesmentivelmente temos no nosso país.



A nível de equipas, estruturas como a Bastos Sport, António Simões Motorsport, ou Veloso Motorsport, têm dado ao longo dos últimos anos no país vizinho bastos motivos de saber e competência, sendo vistas em diversos quadrantes, com inteira justiça, como organizações referenciais no que respeita à preparação de carros de competição.

No contexto específico do todo-o-terreno, diversas têm sido também as duplas de pilotos portugueses apostadas em competir com regularidade nas Bajas espanholas, dali trazendo vitórias, títulos, honra e glória.



Com alguma perplexidade, os Ralis têm escapado por completo a esta lógica.

Tirando algumas participações com carácter residual que os nossos pilotos vão, a espaços, encetando nas provas de estrada do país vizinho – e que acabam por materializar a exceção que confirma a regra - certo é que no âmbito dos Ralis ainda há hoje entre os países ibéricos uma enorme fronteira, alicerçada porventura na barreira do desconhecimento.

Por ser uma disciplina por definição mais onerosa que as provas de velocidade, encerrando em paralelo maior complexidade logística, compreende-se ser mais fácil ensaiar uma internacionalização nas corridas disputadas em autódromo do que o realizar nas provas de estrada.

Porém, tal realidade não afasta a ideia de que os Ralis entre Portugal e Espanha andam há muito – para não referir que andaram sempre - de costas voltadas, não havendo nenhuns indicadores que nos permitam concluir, pelo menos a prazo, poder vir a operar uma reversão em tal estado de coisas.

E os Ralis em Espanha, designadamente os seus principais campeonatos internos, têm forçosamente de ter qualidade.



Não será certamente um mero acaso que ao longo dos anos, em épocas distintas, nuestros hermanos tenham sabido produzir na sua ‘cantera’ interna diversos campeões do mundo.

Desse acervo de talentos, o nome mais emblemático é evidentemente Carlos Sainz, protagonista de algumas das mais épicas páginas da história dos Ralis.

Tudo já foi dito e redito relativamente ao colossal talento do piloto madrileno, bicampeão mundial de Ralis – possuidor de vários outros galardões que lhe recheiam um currículo imaculado e brilhante -, ainda há meses atrás plasmado em forma de vitória no Argentina/Chile, também denominado ‘Dakar’.



Dani Sordo, ostentando também um título de campeão do mundo - categoria S1600 -, é por seu turno hoje visto como um valor sólido no contexto dos World Rally Cars, perfilando-se a prazo como um dos potenciais sucessores de Sebástien Loeb, relativamente ao qual tem cumprido a contento o papel de lugar-tenente.

Não esqueçamos, de igual forma, Gustavo Trelles, pluri-vencedor dos mundiais para viaturas do agrupamento de carros de produção, conhecidos por ‘Grupo N’ – disciplina que dominou entre 1996 e 1999 -, que não obstante ser de origem uruguaia fez carreira nos campeonatos de Ralis em Espanha, ou ainda Enrique Garcia Ojeda, vencedor do Intercontinental Rally Challenge em 2007.

Todos os exemplos citados foram, em dado momento, em asfalto ou em pisos de gravilha, campeões de Espanha de Ralis (ver lista infra).

Há, naturalmente, outros nomes que não tendo tido tanto protagonismo como os atrás citados, contribuíram também eles para o reconhecimento internacional dos pilotos espanhóis de Ralis, como é o caso de Xavi Pons - à data em que publicamos este tópico, líder confortável dos S-WRC no campeonato do mundo - ou Jesus Puras, não afastando deste raciocínio até os sucessos que a Seat conseguiu resgatar na F2, em finais dos anos noventa, com o emblemático modelo Ibiza.



Tantos títulos, são um indelével selo de garantia relativamente à qualidade dos Ralis em Espanha.

Contudo, antes de surgirem na alta-roda do automobilismo todos os nomes que atrás elencamos, houve alguém que em tempos já remotos assumiu foros de pioneirismo podendo considerar-se, sem deferência nem favor, o primeiro grande piloto espanhol de Ralis.

Esse alguém, como já terão adivinhado, chama-se António Zanini

- continua -

CAMPEÕES DE ESPANHA DE RALIS (ASFALTO):

1966 - António Albacete (Mini 1275)
1967 - Bernat Tramont (Alpine Renault)
1968 - Bernat Tramont (Alpine Renault)
1969 - José Maria Palomo (Porsche 911R)
1970 - Ruiz Gimenez (Porsche 911)
1971 - Lucas Sainz (Alpine Renault)
1972 - Salvador Cañellas (Seat 124)
1973 - Jorge Babler (Seat 124)
1974 – António Zanini (Seat 124/1800)
1975 - António Zanini (Seat 124/1800)
1976 - António Zanini (Seat 124/1800)
1977 – António Zanini (Seat 124/1800)
1978 - António Zanini (Seat 124/1800)
1979 - Jorge Bagration (Lancia Stratos)
1980 - António Zanini (Porsche 911)
1981 - Jorge Bagration (Lancia Stratos)
1982 - António Zanini (Talbot Lotus Sunbeam)
1983 - Genito Ortiz (Renault 5 Turbo)
1984 - António Zanini (Ferrari 308 GTB)
1985 - Salvador Servia (Lancia Rally 037)
1986 - Salvador Servia (Lancia Rally 037)
1987 - Carlos Sainz (Ford Sierra Cosworth)
1988 - Carlos Sainz (Ford Sierra Cosworth)
1989 - Pep Bassas (BMW M3)
1990 - Jesus Puras (Lancia Delta Integrale)
1991 - José Mª Ponce (BMW M3)
1992 - Jesus Puras (Lancia Delta Integrale)
1993 - Mia Bardolet (Opel Astra GSI)
1994 - Oriol Gomez (Renault Clio 16V)
1995 - Jesus Puras (Citröen ZX 16V)
1996 - Luís Climent (Citröen ZX 16V)
1997 - Jesus Puras (Citröen ZX Kit Car)
1998 - Jesus Puras (Citröen ZX Kit Car)
1999 - Jesus Puras (Citröen Xsara Kit Car)
2000 - Jesus Puras (Citröen Xsara Kit Car)
2001 - Luís Monzon (Peugeot 206 WRC)
2002 - Jesus Puras (Citröen Xsara WRC)
2003 - Miguel Fuster (Citröen Saxo S1600)
2004 - Alberto Hevia (Renault Clio S1600)
2005 - Daniel Sordo (Citröen C2 S1600)
2006 - Daniel Solá (Citröen C2 S1600)
2007 – Miguel Fuster (Fiat Punto S2000)
2008 – Enrique Garcia Ojeda (Peugeot 207 S2000)
2009 – Sérgio Vallejo (Porsche 911 GT3)

CAMPEÕES DE ESPANHA DE RALIS (TERRA):

1983 - Ricardo Muñóz (Citroen Visa)
1984 – António Zanini (Talbot Samba)
1985 - Guillermo Barreras (Renault 5 Maxi turbo)
1986 - J.C. Oñoro (Opel Manta 400)
1987 - J.C. Oñoro (Lancia Delta S4)
1988 – Gustavo Trelles (Lancia Delta S4)
1989 – Gustavo Trelles (Lancia Delta S4)
1990 – Gustavo Trelles (Lancia Delta S4)
1991 - Mia Bardolet (Ford Sierra Cosworth 4x4)
1992 - Gustavo Trelles (Lancia Delta HF Integrale)
1993 - Enric Burrul (Citroen AX 4x4)
1994 - Cláudio Aldecoa (Ford Escort Cosworth)
1995 - Gabriel Mendez (Lancia Delta HF Integrale)
1996 - Pedro Javier Diego (Lancia Delta HF Integrale)
1997 – Pedro Javier Diego (Subaru Impreza e Ford Escort Cosworth)
1998 – Pedro Javier Diego (Toyota Celica)
1999 – Pedro Javier Diego (Toyota Celica e Ford Escort Cosworth)
2000 - Carlos Solé (Mitsubishi Lancer Evo 6)
2001 - Marc Blazquez (Seat Cordoba WRC)
2002 - Txus Jaio (Ford Focus WRC)
2003 - Txus Jaio (Ford Focus WRC)
2004 - Flávio Alonso (Seat Ibiza 4x4)
2005 - Samuel Lemes (Mitsubishi Lancer Evo 8)
2006 - Alex Villanueva (Mitsubishi Evo 8)
2007 – Daniel Solá (Mitsubishi Evo 9)
2008 – Xevi Pons (Mitsubishi Evo 9)
2009 - Yeray Lemes (Mitsubishi Evo 9)

FONTES:
- http://www.motorsportsresults.com/rally/Rallyes.europe.pdf 
http://www.rallyeracing.net/index.php/bpa-con-antonio-zanini-en-el-%E2%80%9C19-capitales%E2%80%9D-historico
- http://www.rallybuzz.com/rare-group-b-rally/
- http://www.seat.com/com/generator/su/com/SEAT/site/company/SEATSport/main.html- http://www.portimaoturis.pt/?v=1&id_noticia=95
- http://www.ralisasul.com/forum/viewtopic.php?f=13&t=1862
- http://driverphoto.foroactivo.com/historia-history-f4/antonio-zanini-su-trayectoria-en-fotos-t12.htm
- http://seatcientotreintayuno.mundoforo.com/1-vt112.html?start=0
- http://www.motorsportforums.com/forums/showthread.php?t=128974&page=2
- http://www.rallyeracing.net/noticias/otras/bpa-con-antonio-zanini-en-el-%E2%80%9C19-capitales%E2%80%9D-historico
- http://www.antoniozanini.com/
- http://es.wikipedia.org/wiki/SEAT_Sport
- http://images.google.pt/images?um=1&hl=pt-&tbs=isch:1&q=aNTONIO+zANINI+
PHOTOS&sa=N&start=100&ndsp=20
- http://slotadictos.mforos.com/720352/5204312-donde-se-puede-ver-el-palmares-de-los-campeones-de-espana-de-rallies/
- http://www.rallybase.nl/index.php?type=profile&driverid=3543
- http://seatcientotreintayuno.mundoforo.com/antonio-zanini-el-pionero-vt112.html
- http://golden-sands.rally-club.net/zlatni_en.html
- http://www.as.com/motor-mercado/foto/tandem-ganador-veterano-piloto-antonio/20100721dasdasmme_1/Ies
- http://rallymemory.blogspot.pt/2011_11_01_archive.html